2012-05-24



"As efetivas ameaças que pairam sobre a Humanidade mostram a urgente necessidade de «desvendar ou antecipar o que nos espera» na nossa relação com o Céu e a Terra. Dominamos a matéria, manipulamos as eis físicas, acumulamos o poder e o dinheiro, aperfeiçoamos a racionalidade, e, todavia, o caminho que escolhemos parece conduzir diretamente ao caos.
É bom acreditar que merece a pena «levantar o Céu», e lembrarmo-nos que não estamos sozinhos. Felizmente há muitas mulheres e homens neste mundo a tentar unir esforços para manter o contacto entre o Céu e a Terra. É esse o caminho que a sabedoria ensina a percorrer para encontrar saída do labirinto em que a vida nos coloca." | José Mattoso

2012-05-22

Família, trabalho e festa
ENCONTRO DIOCESANO



Ao mesmo tempo que decorre, em Milão, o VII Encontro Mundial das Famílias, vão realizar-se no Porto, as Jornadas Diocesanas sobre Família e Juventude. Um dos eventos destas Jornadas será o Encontro Diocesano sobre Família, Trabalho e Festa, o mesmo tema do Encontro Mundial. Será um momento de comunhão com a Igreja Universal e de reflexão diocesana sobre a tão importante problemática da Família nos nossos dias. A Família, verdadeiro património da humanidade, tem de ser colocada em cima da mesa como primeira e grande escola de virtudes e de afetos. O bem precioso que as famílias humanas constituem para todos nós precisa de ser muito acarinhado e apoiado, mormente nestes tempos de crise, tempos em que muitas famílias passam por sérias dificuldades, não só financeiras, mas também de identidade.

Mais informações:
:: Diocese do Porto
:: VII Encontro Mundial das Famílias

2012-05-08

ECCE HOMO 11/12

2012-04-14

Gabriel Pacheco



Reencontrámo-nos nesta experiência salvífica de contacto com Jesus ressuscitado. Foi muito intensa a Páscoa: a desconcertante entrada em Jerusalém, a dificuldade de descansar o coração nessa Ceia em que se pressente a Paixão; a cruz que povoa o nosso imaginário, a morte, um certo sentido agónico da existência que a ressurreição de Cristo dissipa… mas a luz súbita da ressurreição não é uma evidência diante do sepulcro vazio.
É isso que nos narra o Evangelho de S. João: quando o medo aprisiona ainda os corações dos apóstolos, eis que escutamos: "A paz esteja convosco", dito isto, Jesus soprou sobre eles e disse-lhes: "Recebei o Espírito Santo." Lembro-me do Livro do Génesis, em que Deus formou o Homem do pó da terra e, com o sopro da vida, transformou-se num ser vivo, animado (com alma); do mesmo modo, Jesus, com o sopro de uma nova vida, transforma-nos num ser humano novo… no Cristo ressuscitado somos nova criatura, somos recriados, somos o Homem Novo.
A presença de Jesus neste contexto provoca alguma preplexidade, até alguma incredulidade no seio dos apóstolos. Evidente é a morte, não a ressurreição; e as narrativas evangélicas – 30, 40, 50 anos depois dos acontecimentos – não conseguem esconder um certo espanto de natureza poética. Continua a ser a poesia, como escreveu Ossip Mandelstam, "a charrua que opera sobre o tempo para fazer emergir o que, nele, repousa no profundo"; são assim os Evangelhos, narram os sulcos que, pacientemente, revolvem as devastações da terra em busca de um brilho, de uma razão, de uma palavra… ou transtornam as escuridões planetárias que nos habitam, na esperança de um não sei quê agitado de esplendor.
Curiosamente, os Evangelhos não se detêm na narrativa do contexto da ressurreição; religam a palavra ao silêncio, o visível ao invisível, por uma espécie de integridade inseparável que se descobre em nós e nas coisas, como pelo desencanto face ao inaceitável do mundo, face à repetição sonâmbula do mal, à violência desmedida da banalidade que contamina tudo, face à morte.
"Não está aqui, ressuscitou!" Um sepulcro vazio… Reencontramos Cristo em circunstâncias como a de hoje, não como uma assombração, mas com uma presença real e impressiva que assoma à narrativa a propósito da incredulidade de Tomé, sem perder a densidade simbólica, a sua verdade intrínseca, o diálogo, o gesto, o toque, o reconhecimento que assume as proporções de uma profissão de fé.
Habitamos, com efeito, um mundo largamente desdivinizado, reduzido nas suas acepções possíveis, “uma coisa sem transcendência”, como denunciou Ortega y Gasset, distraído que está da profundidade dos grandes símbolos, dos códigos matriciais das linguagens, enquanto dispersa a sua fortuna no raso comércio de sinais que se pretendem directos e imediatos, longe, muito longe, da preocupação pelo fulgor íntimo de um sentido, como escreveu José Tolentino Mendonça.
Habitar este mundo não só dificulta uma certa (e indispensável) capa-cidade de abstracção inerente às implicações conceptuais da ressurreição de Cristo, como fundamentalmente compromete a consciência de participação profunda na ressurreição de Cristo. E isso é o núcleo da nossa Fé e da nossa Esperança: com ele morremos para a morte que nos matava, com ele, nele e por ele ressuscitamos para uma vida nova.
O que é que nos move? O que nos move continua a ser, nas palavras de José Tolentino Mendonça, "uma qualquer compaixão pela vida, nua, pobre, passada, inocente, esquecida, sussurrante, amante, quase nada… Uma paixão que ordena o coração na procura disso que, numa novela de Henry James, se explicita assim: 'E a ti, o que é que te salva?'" É o amor de Deus plenamente realizado na ressurreição de Cristo que me salva. | José Rui Teixeira

2012-04-10

© Omar Cleunam



A Economia Social e o reencontro do laço social

Esteve connosco, na Universidade Católica, a economista Elena Lasida, do Instituto Católico de Paris (Vice-Directora da FASSE). Deixo aqui uma brevíssima nota de uma reflexão que nos foi proposta, na senda do seu livro: Le goût de l'autre. La crise, une chace pour réinventer le lien. Albin Michel, 2011. É mesmo só para sinalizar, abrir o horizonte da curiosidade e convidar a conhecer mais.
Elena Lasida relembra que economia é relação e, na senda dos institucionalistas, vem propor uma leitura original, combinando a tradição cultural bíblica com uma reflexão actual sobre o mundo e a economia, o seu modo de regulação. Na sua óptica, a economia tem uma natureza essencialmente social, sustentada na relação humana. E é da sua natureza não ter que ser completamente subordinada à relação mercantil. Um exemplo: a aliança e o contrato. No contrato, procuramos acautelar os interesses de ambas as partes e proteger os nossos interessses face aos do outro e, em termos sociais, os contratos visam também proteger os mais débeis, pela via da lei e do Estado de Direito. A aliança vai mais longe e é mesmo de outra natureza. Deus fez uma aliança com o seu povo, por intermédio de Noé, depois do dilúvio. Deus fez uma promessa a Noé, no quadro de um compromisso unilateral, de nunca mais destruir a terra através de um dilúvio. Mas esta promessa muda o estatuto do homem diante de Deus: de ora em diante ele será tão responsável como Deus por esta terra, fazendo dela um local de vida e não de morte e corrupção. O homem é co-criador da vida. Renunciando Deus à violência, mostra um caminho novo ao homem. Ele mostra que se pode lutar contra o que destrói as relações com aquilo que as constrói. Pode-se combater o que divide através do que une, a morte através do que dá a vida. Entre dos modos de conter a violência e de pensar a criação, podemos seguir o modelo do contrato, que se baseia nas condições a respeitar e nas sanções em caso de incumprimento, e o da aliança, que apela a uma coresponsabilização na obra da criação.
A economia solidária está cheia de outras relações económicas que não as puramente fundadas neste modelo do contrato. No seu entender, há três tipos de deslizamentos e de fronteiras sobre as quais se deve trabalhar, hoje, unindo e não excluindo: uma que oscila entre a satisfação constante das "necessidades" e a procura de acesso aos bens, por um lado, e a cocriação, por outro. Esta fronteira deve abrir à manifestação das capacidades criativas de cada pessoa e à criação em conjunto dos mundos possíveis; outra que oscila entre a dimensão quantitavia e qualitativa da economia. Esta abre a possibilidade de valorização (dar valor) a actos sem equivalente monetário, a relação gratuita, a presença junto de alguém que sofre, o dom; a terceira é a que oscila entre uma lógica individual de consumo e de individualização social e de procura de independência e uma lógica de interdependência, de valorização da relação. Fronteiras a rever e a compreender.
Elena Lasida propõe uma aproximação antropológica à economia, na medida em que esta é relação e na relação, no diálogo e no encontro é que se faz a experiência da transcendência. Do que se trata, afinal, é de outro modo de pensar o desenvolvimento das sociedades, reservado para cada pessoa um lugar diferente, mais humano e mais digno. Por exemplo, diante das competências dos trabalhadores desempregados, opta-se quase sempre po ir à procura dos trabalhadores verificando se são capazes de responder às necessidades dos mercados de trabalho e o conjunto da sociedade pouco se perguntam sobre as competências de cada pessoa e sobre as suas possibilidades (e as nossas compossibilidades) para realizar actividades e trabalhos, com os quais se quer comprometer, certamente portadores de estilos de vida mais sóbrios e dignos e factores de maior realização humana.
São temas a aprofundar, certamente.
Mais um pontapé de saída, entre muitos dados (com Luigino Bruni) e a dar, para atribuirmos, na prática, outro valor à economia social e solidária no seio da Universidade Católica Portuguesa e da sociedade portuguesa, que dela tanto necessita. | Joaquim Azevedo

2012-03-10




A arte como transfiguração, nestes dias últimos

Na condição de poeta, é-me pedida uma breve reflexão sobre a arte como transfiguração, nestes dias últimos. Penso no sentido que pode ter a expressão: a poesia como transfiguração, nestes dias últimos. Penso na verdade destes dias serem os últimos, enquanto presente e nos limites conceptuais da temporalidade. Antes ainda de reflectir sobre o sentido da arte e da poesia como processos de transfiguração, lembrei-me do breve ensaio de Heidegger, intitulado Para quê poetas?, provocação de Hölderlin, cem anos antes : "Para quê poetas em tempos de penúria?"
Trata-se do mesmo tempo, apesar das clivagens cronológicas… esses mesmos dias últimos. Trata-se do mesmo sentimento de ausência de Deus ou de impossibilidade de perceber a sua presença. Trata-se da mesma ferida ontológica, do mesmo sentimento de abandono de expressão existencialista, da mesma verdade que faz do poeta – do artista – esse primeiro Homem e o Homem último.
O nosso presente exige uma profunda reflexão sobre aquilo que seremos, sobre o futuro das nossas sociedades, se teremos capacidade de reinventar comunidades… E se o diagnóstico do presente é aqui desnecessário, na medida em que todos o testemunhamos em tempo real e vida concreta, a pergunta impõe-se novamente, com renovada assertividade: para quê poetas num tempo assim? Tempo de penúria? Sim, em tempo de penúria, ou de crise… este tempo em que tudo parece ser a medida de si mesmo, tempo de um autismo egótico e ególatra, como se o meu ensimesmamento me autojustificasse ou, pelo menos, me proporcionasse algum lenitivo auto comprazimento.
Para quê poetas num tempo assim? Tempo em que a entropia vai sendo a medida da desordem ou imprevisibilidade dos sistemas, das nossas próprias vidas… Tempo em que os dias são todos de morrer, expressão da caducidade do mundo, expressão da morte a que trescalam os nossos dias.
Servem para isso os poetas? Não, os poetas não servem para nada. Os poetas não são de servir, os poetas são de transfigurar. Transfigurar no sentido cristão de processo de configuração com Cristo, em ordem à transfiguração, adequação da minha figura à sua figura. Mas dizia: o poeta é de transfigurar, transfigurar no sentido de humanizar, no sentido de santificar. Lembro-me das palavras de Jaime Cortesão, em Portugal, a Terra e o Homem: "Depois atinge-se Amarante debruçada sobre o rio, vila antiga e solarenga dum santo e dum poeta, de São Gonçalo e de Teixeira de Pascoaes. Poetas como este, por vezes mais que os santos, santificam a vida." É isso…
É isso que move a mão do poeta, como nas palavras de José Tolentino Mendonça: "uma qualquer compaixão pela vida, nua, pobre, passada, inocente, esquecida, sussurrante, amante, quase nada. Uma paixão que ordena a mão na procura disso que, numa novela de Henry James, se explicita assim: 'E a ti, o que é que te salva?' Oh, os que não sabem que a mão escrevente é a mão que salva!"
Creio que essa é uma das respostas possíveis à pergunta de Hölderlin. Para quê poetas em tempos de penúria? Para transfigurar redimindo, para redimir transfigurando, para ser substantivamente e significativamente processo de humanização; para que a penúria seja menos penúria, para que a caducidade seja menos caducidade, para que a morte seja menos entrópica.
No colóquio 'Ver o invisível, dizer o indizível', organizado em Janeiro pelo Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura, no Auditório de Serralves, o poeta Valter Hugo Mãe falava de intensificar a vida, de pessoas que intensificam a vida… É isso: a arte e a poesia são de intensificar. Creio que é disso que carecemos nestes dias últimos.

José Rui Teixeira
II Encontro dos Artistas do Porto . 16 de fevereiro de 2012

2012-03-01

A arte como transfiguração, nestes dias últimos.

Dizem-me que escrevi para este encontro dos artistas uma mensagem muito esmagadora, muito negativa. Não concordo e vou tentar explicar melhor porquê. Reafirmo: quem nos dera que estes conturbados tempos que vivemos fossem os últimos para a desgraça que percorre o mundo e corrompe a vida: a exploração de uns humanos por outros humanos, a escandalosa concentração da riqueza nas mãos de uns poucos, que a usam para gerar a insegurança e pobreza de tantos, a finançiarização das relações económicas, que bem podiam ser relações de encontro, o lucro como o supremo critério das relações económicas, a delapidação dos recursos naturais, o individualismo agigantado que redundou em isolamento e fragmentação social, porque prescindiu do outro… traços, entre muitos outros, da desfiguração do verdadeiramente humano.
Quem nos dera que estes fossem tempos últimos, de passagem, de transfiguração desta desfiguração em que caímos, e que bom seria que o mundo ficasse um lugar um pouco melhor para nele todos podermos viver em paz.
O que tem a arte a ver com isto? Tudo.
Primeiro (talvez um pouco ilusoriamente?), quando falo de arte falo de um mundo dominado pelo gratuito, não sujeito às regras da competitividade que nos dizem serem as regras do nosso quotidiano, as tais para as quais, dizem e repetem, nos teremos de preparar. Um mundo que nos revela o que de mais sublime há em nós: os traços da nossa humanidade, que descrevem e desenham cada ser humano de modo único. E a revelação dessa humanidade torna-nos mais humanos, interroga o sentido da nossa vida, faz-nos mais próximos, relaciona-nos como somos, torna-nos mais sensíveis, eleva-nos.
Segundo, porque a arte é, a um tempo, figuração e transfiguração: evoca o encontro pessoal do artista com o mistério do mundo e gera em nós um encontro pessoal com esse mesmo mistério, encontro este que é sempre um apelo, o início de uma nova leitura, porventura até de um incontido fascínio. Quando um pintor trabalha uma tela ou um escultor um pedaço de ferro ou quando um escritor ronda uma palavra, cria no dito e no não dito, coloca-nos diante da eternidade no tempo, diante do mistério de onde a obra de arte emergiu. Participamos do mistério da criação, aproximamo-nos um pouco mais do invisível, do insensível e do indizível. Há obras de arte que perduram no tempo, fornecendo-nos milhões e milhões de leituras humanas, as dos olhos de cada um, a partir de uma exposição a esse mistério que habita o dito, a obra, o feito.
O artista é um trabalhador que labora em silêncio, as mais das vezes longe do convívio e do bulício do quotidiano, é um artífice que humildemente nos fala daqueles mistérios, trazendo-nos diante dos olhos o que no dia-a-dia ainda não fomos capazes de ver, nem de ouvir, nem de pronunciar, nem de sentir. A transfiguração está na raiz da criação artística porquanto esta é respiração, uma outra janela aberta sobre o mundo e a vida, o quotidiano e o tempo.
O artista é, assim, participante do mistério da criação, é cocriador do mundo e da vida, figurando-os e transfigurando-os, e desse modo, além de expressar o que percorre o seu íntimo, os traços do seu rio interior, lança convites a todos os outros homens a serem também cocriadores do mundo e da vida, desenhando-os, cada um no seu melhor modo, convites estes que nos incitam a irmos em busca do essencial.
Haverá ou não uma urgência em tocar a verdade? Haverá ou não tempo para os artistas revelarem hoje uma outra figuração (que também pode ser uma desfiguração) que não apenas a que vemos na técnica e na reconstrução plástica, mas também a que vemos na relação e na figuração humana, sobretudo dos que mais sofrem? O que é que de eternidade se exprime na voragem da realidade dos dias? Hoje, não há mesmo lugar para a eternidade? Os artistas desistiram de nos revelar o desconhecido e o mistério do mundo e da vida? Pretendeu-se arrumar com Deus da nossa cultura, agora estamos também a arrumar o homem para o seu canto. Por isso, esta crise é bem maior e mais grave nos dias que correm, pois só o amor entre os homens os pode salvar e fazê-los chegar à sua plenitude, ao seu cabal cumprimento como seres humanos, cada um a seu modo.
A arte, nestes dias últimos, é um caminho. Para onde? Para quê? Para que tudo recue e se rigidifique, assim como está, ou, pelo contrário, para que se derrube este tempo fechado no ensimesmamento e na guerra e se abra outro tempo, de relação e de beleza, essa que não é necessariamente bonita, mas que é "o esplendor da verdade". A arte cria e recria, corta e dilacera, destrói e reconstrói, figura e desfigura, abre os olhos e os sentidos para outras palavras, outros gestos e outros sentidos. É urgente falarmos do que não vemos quando olhamos e fazer disso a motivação e o alicerce de uma outra relação. Re-ligar é uma tarefa urgente deste tempo. O artista é um pontífice entre este tempo e a eternidade do AMOR, tornando-a presente e dando-nos esse presente, um pontífice entre este nosso presente e o insondável desse Amor Pleno. O artista abre-nos a janela, dá-nos o oxigénio: os nossos olhos quase que veem o que não se pode ver, os nossos lábios tocam a brasa a arder e os nossos dedos comovem-se até ficarmos sem saber onde colocar as mãos!
O Cardeal Barbarin diz que somos convidados a pensar na atitude de Maria, Mãe de Jesus, que diante do aparente fracasso do seu Filho, diante do seu corpo desfigurado pela crueldade humana, fica de pé junto à cruz e O olha. Ela olha o que parece ser aos olhos de todos um fracasso, uma obra deteriorada, dececionante. Ela não aprova esta obra da morte, mas assume-a, o que constitui o primeiro passo para a sua redenção. Ela fica ali, ao pé da cruz do assassinado, porque a habita uma profunda esperança, uma esperança mais forte que a morte.
Tão ou mais grave do que pensarmos viver sem Deus, é vivermos sem mundo, sem pessoas concretas, sem história, sem política, sem nada por diante, sem futuro que não seja um fim, uma técnica, um gadget, mais ou menos imediato, o cumprimento imediato de um Acordo de Empréstimo de uns dinheiros. Esse não é o nosso horizonte. Este não pode ser o nosso horizonte, porque está fechado sobre si mesmo, mete um povo dentro de um quarto com portas e janelas, mas diz-lhe que as portas e as janelas não funcionam, estão fechadas, que não vale a pena pensarmos mais nisso. Pois, meus caros amigos, é mesmo nisso que temos de pensar!
Baudelaire dizia aos burgueses do seu tempo, em 1846: "podeis viver três dias sem pão; sem poesia, jamais; e os que de entre vós dizem o contrário, enganam-se: (e acrescentava) eles não se conhecem."
Somos como o primeiro homem, vivemos dentro da mesma obscuridade e dos mesmos raios de luz, ou melhor dentro do mesmo mistério, por entre os evoluções técnicas, que nos permitem afirmar um progresso, um tempo que apresentamos como novo. Mas a arte não fala deste tempo, pode servir-se desses materiais, mas deve falar do intemporal. Essa é a arte que serve o homem e de que o homem se serve sem nunca a desgastar.
Obrigado por estarem aqui, neste nosso segundo encontro. Lentamente, passo a passo, vamos estabelecendo novas relações e vamos dizendo uns aos outros que afinal as portas e as janelas se podem abrir e como. E como é que é? É assim, deste jeito!

Joaquim Azevedo
II Encontro dos Artistas do Porto . 16 de fevereiro de 2012

2012-02-20

O seminário A pergunta na hora de partir, em Novembro de 2010, foi promovido pela Pastoral da Cultura da Diocese do Porto, na Universidade Católica: a abertura pelo Prof. Joaquim Azevedo, quatro poetas [António Nobre, Teixeira de Pascoaes, Ruy Belo e Daniel Faria], quatro conferencistas [José Carlos Seabra Pereira, António Cândido Franco, Manuel António Ribeiro e D. Carlos Azevedo], quatro conferências memoráveis e o encerramento pelo Bispo do Porto, D. Manuel Clemente; a presença de mais de 300 pessoas no Auditório 1 [tarde] e no Auditório Ilídio Pinho [noite]; uma impressiva exposição de esculturas de Karin Somers, um texto de José Manuel Teixeira da Silva e o Quarteto para o fim dos tempos de Olivier Messiaen, interpretado por Filipe Pinto-Ribeiro [piano], Pascal Moragues [clarinete], Tatiana Samouil [violino] e Justus Grimm [violoncelo].

2012-02-10

ECCE HOMO 11/12
2º ciclo | juventude . família . escola

2012-02-05

II Encontro de Artistas do Porto



Na sequência do I Encontro de Artistas do Porto [2011], promovido pelo Secretariado da Pastoral da Cultura da Diocese do Porto, por ocasião do dia de Fra Angelico [patrono dos artistas], ocorrerá no dia 16 de Fevereiro, o II Encontro. Este terá como tema geral:

A arte como transfiguração, nestes dias últimos


Quem nos dera que estes conturbados tempos que vivemos fossem os últimos para tanta desgraça que percorre o mundo e corrompe a vida: a exploração de uns humanos por outros humanos, a escandalosa concentração da riqueza nas mãos de uns poucos, que a usam para gerar insegurança e pobreza, a finançarização das relações económicas, que bem podiam ser relações de encontro, o fanatismo religioso, a degradação da biosfera, o racismo e o individualismo crescente...
Quem nos dera que estes fossem tempos últimos, de passagem, de transfiguração, em que o mundo ficasse um lugar um pouco melhor para nele todos podermos viver em paz, sem excepções. Tempos em que o outro moldasse em nós uma outra face, mais verdadeira e um dom.
A arte é, a um tempo, figuração e transfiguração: evoca o mistério do mundo e gera um encontro pessoal com esse mesmo mistério, encontro este que é sempre um apelo, o início de uma nova leitura, de um incontido fascínio.
Haverá ou não uma urgência em tocar a verdade? Haverá ou não tempo para os artistas revelarem hoje uma outra figuração que não apenas a que vemos na técnica e na reconstrução plástica, mas também a que vemos na relação e na desfiguração humana, sobretudo dos que mais sofrem? O que é que de eternidade se exprime na voragem da realidade dos dias? Hoje, não há mesmo lugar para a eternidade? Os artistas desistiram de nos revelar o desconhecido e o mistério do mundo e da vida?
A arte, nestes dias últimos, é irrecusavelmente um caminho. Para que tudo recue e se rigidifique, assim como está ou, pelo contrário, para que se derrube este tempo fechado no ensimesmamento e na guerra e se abra outro tempo, de relação e de beleza, essa que não é necessariamente bonita, mas que é “o esplendor da verdade”. A arte cria e recria, corta e dilacera, destrói e reconstrói, abre os olhos e os sentidos para outras palavras, outros gestos e outros sentidos. É urgente falarmos do que não vemos quando olhamos o que vemos e fazer disso a motivação de uma outra relação, de um novo encontro, uns com os outros e com todos. | Joaquim Azevedo

2012-01-20

Memória do colóquio Ver o invisível, dizer o indizível, no dia 6 de Janeiro, no Auditório de Serralves. Reportagem da Agência Ecclesia:

2012-01-10

Vimos o invisível, dissemos o indizível. E há ainda tanto para ver e tanto para dizer! No dia 6 de Janeiro, em Serralves, a Pastoral da Cultura da Diocese do Porto promoveu um colóquio Ver o invisível e dizer o indizível, com a realização de duas mesas redondas: uma com o teólogo João Duque e o poeta Jaime Rocha e outra com o arquiteto Siza Vieira e o escritor Valter Hugo Mãe, moderadas por José Rui Teixeira, do Secretariado.
Foi uma tarde memorável, com um auditório quase cheio, ainda que se tratasse de uma iniciativa pioneira e arriscada, promovida a meio de uma tarde de sexta-feira. Ela ocorre na sequência de um trabalho que a Pastoral da Cultura do Porto tem vindo a desenvolver, com artistas do Porto, em torno da arte e do sagrado.
As crises são tempos importantes para a (des)aprendizagem e os artistas podem aproximar-nos dos novos verbos e do Verbo. Assim se fez, neste dia de início do ano de 2012, um ano proclamado como o de todas as crises. Os poetas, e as crianças, como diz Manoel de Barros, ao mudarem a função de um verbo, fazem o verbo "delirar". Aos poetas cabe o processo de criação, "fazer nascimentos".
A sessão deambulou em torno do acto e do tempo de criar, do modo e da função do processo criativo. Jaime Rocha, poeta e dramaturgo, falou-nos da "sua" Nazaré e dos pescadores que falavam com o mar, percorrendo as longas areias, partilhando com ele a sua dor, a perda dos companheiros e dos familiares desaparecidos que tardavam a chegar, enquanto as mulheres, em casa, conversavam, em voz alta, com os seus santos devotos e com Deus. "O poeta dá vida a esse sofrimento, narra o que está para lá das coisas, escavando no seu interior". Confessa que a sua poesia pretende construir uma ordem, enquanto o seu teatro remete-o para o caos, para uma desordem que explode, mas ambos concorrem para o seu equilíbrio pessoal.
João Duque enquadrou o indizível e o invisível no acto de criação, sublinhando que "O poeta não produz, dá vida". Assinalou a dicotomia entre o trabalho do compositor que dá vida ao silêncio e ao som e o do instrumentista, que é quem executa a obra e produz a música. O invisível e o indizível estão na obra que nasce, na obra de arte, onde é possível encontrar o sentido das coisas. "É entrando no sentido das coisas que vamos dando a ver a outros esse sentido e descobrindo, continuamente, o que não se vê, mas que está lá para que o vejamos". Por isso, o invisível está contido no visível o que constitui um grande repto para todos nós: "invisível é o que habita no interior do que está lá, o que permite ouvir os sons e os sentidos que habitam no interior das palavras ou ouvir as palavras e sofrer os efeitos cerebrais que elas nos provocam."
Jaime Rocha evocou os quadros de Magritte onde "já está tudo lá dito" e tudo quanto eles lhe transmitem e inspiram.
João Duque, apontando o símbolo do Secretariado Diocesano, projectado na tela, "Cristo", de José Rodrigues, sublinhou a necessidade de, ao olharmos Cristo desfigurado, não deixarmos de olhar para o homem que está à nossa volta, cuja desfiguração está tão escondida e tão invisível que urge encontra-la. A arte tem esta "função" de trazer para fora a desfiguração, para que, olhando-a, a possamos ver, sentir e interpretar como um apelo permanente à paz e à justiça.
Na segunda parte deste "encontro", Valter Hugo Mãe, a propósito do acto da criação literária, afirmou: "escrevo para dizer o que não sei; escrever é ir à procura do que não sei, do melhor que eu posso ser".

Joaquim Azevedo, Siza Vieira e Manoel Oliveira.


Uma das surpresas desta bela tarde foi a presença do cineasta Manoel de Oliveira, uma vez que, imediatamente, a realidade se alargou: de quatro passamos para cinco palestrantes.
Manoel de Oliveira começou por revelar uma capacidade única de se rir daquilo que ainda o faz correr. Do alto dos seus 103 anos, disse: "Não sei se tenho muito para dizer, nós fazemos fitas. Fitas não são mais do que fitas!" Referindo-se a Álvaro Siza, falou de duas das suas obras: "A Casa de Chá de Leça e a Igreja do Marco, duas obras excepcionais de Siza Vieira", acrescentando: "A Casa de Chã não se cinge ao espaço interior, expande-se para o oceano e para o absoluto. Os rios desaguam no absoluto que é o mar e perdem a personalidade de rio. A água do mar evapora-se e assim origina novos rios que voltam para o mar" e finalizou dizendo: "A Casa de Leça abre para o infinito, para o transcendente".
Sobre a igreja do Marco sublinhou a dimensão espiritual: "A porta, altíssima, parece ser a porta para o céu e quando se entra, o Cristo aparece à esquerda na parte detrás do altar, onde de uma espécie de chaminé desce uma luz, vinda de cima. É uma outra espécie de absoluto, que abre para o além da morte".
Interrogou-se: "será possível o cinema ser expressão do indizível?" Afirmando de seguida: "O cinema é a expressão do dizível, a música mostra o invisível. O invisível, para mim, são os sentimentos. É a alma, o nosso espírito. É por ai que a gente vive, pelo invisível. Nunca sabemos qual o nosso futuro, ele é um enigma. Estamos no presente. E o que é o presente? É a fábrica do passado! E no passado está toda a nossa sabedoria. O futuro é o invisível, nunca sabemos o passo que vamos dar. O futuro é um enigma e como tal não podemos falar dele. O que me dá um grande descanso!" (risos).
Valeu a pena. Para o ano, no início do ano, haverá mais: é preciso continuarmos a ligar fé e razão, a arte e o sagrado, o invisível e o visível, afinal tão juntos e tão separados, continuar a perscrutar o sentido destes dias críticos (em alguma medida tempos últimos) em que estamos mergulhados, para não sermos os novos apanhados! A Pastoral da Cultura da Diocese do Porto continuará a ser uma promotora deste encontro, uma sementeira de novos possíveis e de um horizonte mais humano para a nossa vida, tão desfigurada ela anda, à semelhança de um Cristo que assim, na cruz, morreu Redentor. | Joaquim Azevedo

2012-01-07

Ontem, no Auditório de Serralves, organizado pelo Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura, decorreu o colóquio Ver o invisível, dizer o indizível.
Pelas 16 horas, o Professor Joaquim Azevedo acolheu as pessoas, que praticamente encheram o auditório, e apresentou o colóquio. Depois, duas conversas informais, moderadas por José Rui Teixeira, juntaram o escritor Jaime Rocha e o teólogo João Duque, o arquitecto Siza Vieira e escritor Valter Hugo Mãe.

João Duque, José Rui Teixeira e Jaime Rocha.


Jaime Rocha [1949] frequentou a Faculdade de Letras, em Lisboa, e viveu em Paris nos últimos anos do Estado Novo. É autor de uma vasta obra no domínio da ficção, da poesia e do teatro. Em 2010 publicou Necrophilia, livro com que termina a sua impressiva Tetralogia da Assombração: Os que vão morrer [2000], Zona de caça [2002] e Lacrimatória [2005].
João Duque [1964] doutorou-se em Frankfurt, na área da Filosofia da Arte. É professor e presidente do Centro Regional de Braga da Universidade Católica. Autor de uma vasta obra, fundamentalmente nos domínios da Teologia e da Filosofia, João Duque realizou estudos de órgão, composição e direcção coral.
Esta primeira conversa foi muito interessante, na medida em que, para além da poesia, do teatro e da música, possibilitou um olhar teológico e filosófico sobre a visão do que não se vê [do que ainda não se vê...] e sobre a dicção do que não se diz [do que ainda não se diz...]. Falámos de modos de ver e modos de dizer, de intuição, de aparições, de intérpretes e interpretações... Falámos do caos que o teatro impõe e do sentido com que a poesia reordena a realidade. Começámos a falar do modo como o poeta observa a morte e terminámos a falar do modo como o teólogo percebe o processo de desfiguração do Homem... coisas tão oníricas e hieráticas como os naufrágios, a ausência do que se vê ou a presença do que é [ainda] invisível.

Valter Hugo Mãe, José Rui Teixeira e Siza Vieira.


Siza Vieira [1933] estudou na Escola Superior de Belas Artes do Porto. A sua obra fala por si... Trata-se de um dos mais notáveis e reconhecidos arquitectos contemporâneos, e a consciência que todos temos disso vale mais do que qualquer nota biográfica. Entre os seus projectos, espalhados por todo o mundo, destaco o Museu de Serralves ou a Igreja de Santa Maria, no Marco de Canaveses.
Valter Hugo Mãe [1971] estudou Direito, mas foi o poeta que se afirmou, numa obra vasta, reunida em 2010 em contabilidade. Com o nosso reino, em 2004, nasce o ficcionista. Recebe o Prémio José Saramago em 2006, com o remorso de baltazar serapião; seguem-se o apocalipse dos trabalhadores [2008], a máquina de fazer espanhóis [2010] e o filho de mil homens [2011].
Esta segunda conversa teve uma maior componente de deriva. Falámos do processo que separa a visão da revelação e falámos do silêncio que precede a palavra... e, ainda assim, a nossa conversa foi habitada pelo que não se vê para lá do que se revela, pelo que não se diz para lá da palavra. Falámos do tempo, do tempo que é necessário entre o que se vê e o invisível, entre o que se diz e o indizível, o tempo... Falámos do trabalho partilhado e da solidão. Falámos dos olhos que não vêem e dos poetas serem esses homens que vêem dentro. Houve um instante em que Siza Vieira disse que "um poema com qualidade é um relógio suíço ao quadrado", porque é uma obra de precisão e rigor inigualável.

José Rui Teixeira, Manoel de Oliveira e Valter Hugo Mãe.


Entre as pessoas que se reuniram ontem no Auditório de Serralves, esteve Manoel de Oliveira. O que posso escrever sobre Manoel de Oliveira?... No final do colóquio o notável cineasta, com 103 anos, silenciou-nos... logo com as suas primeiras palavras: "Estou aqui atraído pelo invisível". Este colóquio ['colóquio' significa, precisamente, 'conversa'], que começara pelas 16 horas com as palavras do Professor Joaquim Azevedo, terminou, quatro horas depois, com uma intervenção inesquecível do Mestre Manoel de Oliveira. | JRT

Fotografias: Pedro Gabriel Rocha.

2012-01-05

2012-01-01

Emil Nolde [1867-1956], A Ceia.


O domingo da OITAVA DE NATAL coincide com o dia 1 de Janeiro de 2012, DIA MUNDIAL DA PAZ, 1º dia de um novo o ano.
O tempo é neutro, por isso é estranho que se enfatize tanto a novidade que este dia representa, desde Sidney ao Rio de Janeiro, desde Tóquio a Nova Iorque. Entre festejos, com mais ou menos fogo-de-artifício, entre brindes e desejos para o novo ano, as superstições e os medos dos homens desfilam de mãos dadas, com matizes milenaristas e apocalípticos quando a festa acaba e a ressaca não recorda os melhores desejos para o tempo novo que neste dia, simbolicamente, se inaugura. É normal. A festa dos loucos termina sempre mal e há em tudo isto uma loucura aceitável no sentido de razoável, razoável no sentido de aceitável.
No contexto dos escritos de S. Paulo, há três tipos de tempo: o 'chrónos', o 'aiôn' e o 'kairós'. 'Chrónos' é o tempo de vida, o espaço de tempo, o tempo biográfico que nos permite as tábuas cronológicas. 'Aiôn' é o tempo de sempre, o tempo contínuo… o tempo do mundo, das eras, dos períodos epocais, o tempo físico da imanência. 'Kairós' é o tempo oportuno para a salvação, trata-se do tempo da esperança, o presente cheio de futuro, o tempo em que a Graça de Deus redime o tempo… o tempo cronológico e o tempo aiónico.
Os cristãos também celebram o tempo cronológico e o tempo aiónico, na medida em que participam do 'chrónos' e do 'aiôn', como toda a matéria orgânica e inorgânica, das bactérias às mais longínquas estrelas… mas fundamentalmente celebram o 'kairós', o tempo kairológico, esse presente já não redutor e ensimesmado, esse presente criativo e partilhado, em que participamos de um projecto de redenção e que nos permite dizer que hoje celebramos a Paz como condição de redenção universal.
Celebrar a Paz não significa apenas desejar a Paz, significa que nos compreendemos como construtores da Paz, responsáveis pela Paz, das nossas casas às ruas das nossas cidades e aldeias, do Paralelo 38 N [que separa a Coreia] às trincheiras e valas comuns que há no mundo, à sombra de muros e muralhas ainda por derrubar. Falo da Paz que começa no momento em que as relações deixam de ser relações de poder, entre irmãos ou esposos, entre pais e filhos, entre vizinhos… Falo da Paz como projecto de vida, em contagem crescente dos dias para os meses, dos meses para os anos, dos anos para os séculos… O tempo kairológico a invadir o tempo cronológico e o tempo aiónico, e a redimir as nossas vidas. | JRT

2011-12-25



É algo poético, talvez… o que ainda não sabemos, o que só pressentimos, o frio nestas latitudes, nestes dias pequenos de Dezembro. É curioso pensarmos que o Natal de Jesus está tão distante de nós em tempo e espaço, em clima e contexto… e ainda assim, buscamos uma intimidade intensa, como se fosse connosco, parte de nós, das nossas memórias, algo tão impressivo como os nossos dias mais impressivos. Sim, é mais fácil abeirarmo-nos do presépio do que da cruz…
É curioso que se a cruz nos traz o mistério da Morte, não é o Natal, mas a Ressurreição, que nos traz o mistério da Vida. O que é que nos dá o Natal? Muito pouco, quase nada… e é esse o mistério do Natal, o que ainda não sabemos, o que só pressentimos. O que o Natal nos dá é uma comovida e poética expressão do Amor de Deus: não sabíamos, nem sequer pressentíamos… que Deus pudesse acontecer tão perto de nós. O mistério do Natal é esse tão perto de nós. O mistério do Natal é a humanidade que se esconde nesse tão perto de nós. É tão perto de nós que nem nos parece possível que possa ser Deus. E creio que foi por isso que me fiz cristão, porque a verdade está onde poucos a procuram, porque Deus está onde poucos o procuram… e o Evangelho é desconcertante, porque nos diz – sem assombros ou complexos recursos literários, mas com uma simplicidade desarmante – que Deus decidiu redimir a humanidade e, no seu projecto de salvação, dá ao mundo e ao tempo o seu Filho… e este Filho de Deus é o Filho do Homem, e nasce tão humano, tão frágil, num contexto tão humilde, tão perto de nós… e nasce tão longe das luzes da ribalta, tão longe do Império, tão longe dos reis e dos príncipes do mundo, tão longe dos sacerdotes; nasce em segredo, tão perto de nós. É o mistério do Natal… ainda não sabemos, mas já pressentimos. Creio que foi por isso que me fiz cristão… o resto vem depois. Não é difícil acreditar na divindade de Jesus… hoje [como há 2000 anos…] não escasseiam pretensos deuses, deuses para isto e deuses para aquilo, deuses para tudo e deuses para nada; difícil é acreditar na humanidade de Jesus… hoje [como há 2000 anos…] é tão difícil acreditar no Homem. E esse é o mistério do Natal, como num poema de José Tolentino Mendonça:

"O Seu advento encontra-nos sempre impreparados
e, contudo, este é o momento em que
por puro dom se nasce.

A Sua vinda testemunha o que não sabíamos ainda:
a nossa frágil humanidade é narração
da autobiografia de Deus."

2011-12-22



Quem se recorda de um homem desconhecido que inesperadamente se apresentou na varanda de S. Pedro de Roma, no dia 16 de Outubro de 1978? Foram estas as suas palavras: "Não tenhais medo! Abri, escancarai as portas a Cristo! Ao Seu poder salvífico abri os confins dos Estados, os sistemas económicos como também os políticos, os vastos campos da cultura, da civilização e do desenvolvimento. Não tenhais medo!" ["Non abbiate paura!"]

2011-12-20



Na sequência do trabalho que realizámos entre 2010 e 2011, apresentamos um colóquio subordinado ao tema: ver o invisível, dizer o indizível. Este colóquio reunirá, em torno de duas conversas, o pintor Júlio Pomar e o escritor Jaime Rocha, o arquitecto Siza Vieira e o escritor Valter Hugo Mãe; decorrerá no Auditório de Serralves, entre as 16 e as 20 horas do dia 6 de Janeiro próximo.

Procuramos com este colóquio, promover uma reflexão consequente no âmbito do diálogo entre a Fé e a Cultura, nas suas expressões artísticas e literárias. Com efeito, desafiados pela expressão de Heiner Müller: "Escrevo sempre mais do que aquilo que sei", ponderamos a acuidade desta expressão, formulada em termos do que se vê e do que se diz.

A entrada é gratuita mediante o levantamento de bilhete na recepção de Serralves e está sujeita à lotação do Auditório.

2011-12-15

No final de 2010, o P. José Tolentino Mendonça pediu-me um texto para o Observatório da Cultura sobre O diálogo entre a Fé e a Cultura no meio editorial. Acho que vale a pena relê-lo:



Por estes dias, enquanto trabalhava num dossier sobre Universidade Católica Editora – Porto, perguntei a mim próprio qual deveria ser o seu contributo para a Igreja em Portugal, para as faculdades de Teologia, mas também para as comunidades; na formação pessoal dos cristãos, mas também no diálogo entre a Fé e a Cultura. Diante da minha biblioteca, apartei mentalmente os livros passíveis de serem integrados numa área abrangente de mundividência cristã, da teologia dogmática à história da Igreja, da exegese bíblica à espiritualidade; ignorei os livros estrangeiros e procurei concentrar-me em edições relevantes: restaram-me um conjunto de livros, particularmente da década de 60 do século passado, divididos entre a Livraria Morais Editora e a Livraria Tavares Martins, e, mais recentes, os livros da colecção 'Teofanias', da Assírio & Alvim.
Naturalmente, trata-se de uma abordagem pouco criteriosa a uma questão que merecia um estudo aprofundado, mas creio que, ainda assim, esta perspectiva denuncia um diagnóstico evidente. Com efeito, só há duas hipóteses de ler/adquirir os grandes documentos da tradição cristã: resta-nos importá-los ou, no caso de terem sido traduzidos, há ainda a possibilidade de serem encontrados em livreiros/alfarrabistas.
É evidente que este não é apenas um meio privilegiado para o diálogo entre a Fé e a Cultura, trata-se de uma condição absolutamente necessária para que esse diálogo aconteça e seja consequente. Pode parecer uma consideração pretensiosa, mas não acredito que seja possível esse diálogo sem leituras partilhadas e só poderá haver leituras partilhadas se tivermos a capacidade de traduzir ou recuperar um conjunto de autores sem os quais estaremos irremediavelmente limitados.
Creio que seria necessário um significativo investimento na edição criteriosa de obras de referência, com cuidada apresentação estética e uma efectiva presença no mercado. Sem estes pressupostos, dificilmente criaremos um espaço mais abrangente, onde possam surgir projectos como a recente editora Pedra Angular, que privilegia o território da religião e da espiritualidade, não numa perspectiva confessional, mas numa relação mais ampla e complexa com a cultura.
Falar sobre o diálogo entre a Fé e a Cultura no meio editorial pressupõe, antes da definição de planos editoriais, a definição de um plano estratégico. Para a Igreja esse é um desafio essencial, não só por uma particular vocação editorial, mas sobretudo pelo seu fundamento dialogal. | JRT

2011-12-05



Rodrigo Leão é um acontecimento poético, tem na música Lisboa e Buenos Aires, o mundo inteiro, as mãos e os olhos bem abertos, um livro, o mar ou um beijo de olhos fechados... e coração, tanto coração, coração apertado contra coração, luz morna, noite vagamente febril. Rodrigo Leão é polimórfico, poliédrico, polifónico, polissémico, polissílabo; é um daqueles seres humanos que justifica que Deus tenha criado o Homem à sua imagem e semelhança. E A Montanha Mágica representa a apologia de uma beleza muito rara, híbrida, mestiça às vezes... com especiarias, ervas aromáticas, cores quentes e infusões... café e terracota, um velho impassível debaixo do alpendre ou crianças à chuva, sem guarda-chuva, só Deus nas mãos abertas, nos olhos fechados... | www.rodrigoleao.pt