2012-01-20

Memória do colóquio Ver o invisível, dizer o indizível, no dia 6 de Janeiro, no Auditório de Serralves. Reportagem da Agência Ecclesia:

2012-01-10

Vimos o invisível, dissemos o indizível. E há ainda tanto para ver e tanto para dizer! No dia 6 de Janeiro, em Serralves, a Pastoral da Cultura da Diocese do Porto promoveu um colóquio Ver o invisível e dizer o indizível, com a realização de duas mesas redondas: uma com o teólogo João Duque e o poeta Jaime Rocha e outra com o arquiteto Siza Vieira e o escritor Valter Hugo Mãe, moderadas por José Rui Teixeira, do Secretariado.
Foi uma tarde memorável, com um auditório quase cheio, ainda que se tratasse de uma iniciativa pioneira e arriscada, promovida a meio de uma tarde de sexta-feira. Ela ocorre na sequência de um trabalho que a Pastoral da Cultura do Porto tem vindo a desenvolver, com artistas do Porto, em torno da arte e do sagrado.
As crises são tempos importantes para a (des)aprendizagem e os artistas podem aproximar-nos dos novos verbos e do Verbo. Assim se fez, neste dia de início do ano de 2012, um ano proclamado como o de todas as crises. Os poetas, e as crianças, como diz Manoel de Barros, ao mudarem a função de um verbo, fazem o verbo "delirar". Aos poetas cabe o processo de criação, "fazer nascimentos".
A sessão deambulou em torno do acto e do tempo de criar, do modo e da função do processo criativo. Jaime Rocha, poeta e dramaturgo, falou-nos da "sua" Nazaré e dos pescadores que falavam com o mar, percorrendo as longas areias, partilhando com ele a sua dor, a perda dos companheiros e dos familiares desaparecidos que tardavam a chegar, enquanto as mulheres, em casa, conversavam, em voz alta, com os seus santos devotos e com Deus. "O poeta dá vida a esse sofrimento, narra o que está para lá das coisas, escavando no seu interior". Confessa que a sua poesia pretende construir uma ordem, enquanto o seu teatro remete-o para o caos, para uma desordem que explode, mas ambos concorrem para o seu equilíbrio pessoal.
João Duque enquadrou o indizível e o invisível no acto de criação, sublinhando que "O poeta não produz, dá vida". Assinalou a dicotomia entre o trabalho do compositor que dá vida ao silêncio e ao som e o do instrumentista, que é quem executa a obra e produz a música. O invisível e o indizível estão na obra que nasce, na obra de arte, onde é possível encontrar o sentido das coisas. "É entrando no sentido das coisas que vamos dando a ver a outros esse sentido e descobrindo, continuamente, o que não se vê, mas que está lá para que o vejamos". Por isso, o invisível está contido no visível o que constitui um grande repto para todos nós: "invisível é o que habita no interior do que está lá, o que permite ouvir os sons e os sentidos que habitam no interior das palavras ou ouvir as palavras e sofrer os efeitos cerebrais que elas nos provocam."
Jaime Rocha evocou os quadros de Magritte onde "já está tudo lá dito" e tudo quanto eles lhe transmitem e inspiram.
João Duque, apontando o símbolo do Secretariado Diocesano, projectado na tela, "Cristo", de José Rodrigues, sublinhou a necessidade de, ao olharmos Cristo desfigurado, não deixarmos de olhar para o homem que está à nossa volta, cuja desfiguração está tão escondida e tão invisível que urge encontra-la. A arte tem esta "função" de trazer para fora a desfiguração, para que, olhando-a, a possamos ver, sentir e interpretar como um apelo permanente à paz e à justiça.
Na segunda parte deste "encontro", Valter Hugo Mãe, a propósito do acto da criação literária, afirmou: "escrevo para dizer o que não sei; escrever é ir à procura do que não sei, do melhor que eu posso ser".

Joaquim Azevedo, Siza Vieira e Manoel Oliveira.


Uma das surpresas desta bela tarde foi a presença do cineasta Manoel de Oliveira, uma vez que, imediatamente, a realidade se alargou: de quatro passamos para cinco palestrantes.
Manoel de Oliveira começou por revelar uma capacidade única de se rir daquilo que ainda o faz correr. Do alto dos seus 103 anos, disse: "Não sei se tenho muito para dizer, nós fazemos fitas. Fitas não são mais do que fitas!" Referindo-se a Álvaro Siza, falou de duas das suas obras: "A Casa de Chá de Leça e a Igreja do Marco, duas obras excepcionais de Siza Vieira", acrescentando: "A Casa de Chã não se cinge ao espaço interior, expande-se para o oceano e para o absoluto. Os rios desaguam no absoluto que é o mar e perdem a personalidade de rio. A água do mar evapora-se e assim origina novos rios que voltam para o mar" e finalizou dizendo: "A Casa de Leça abre para o infinito, para o transcendente".
Sobre a igreja do Marco sublinhou a dimensão espiritual: "A porta, altíssima, parece ser a porta para o céu e quando se entra, o Cristo aparece à esquerda na parte detrás do altar, onde de uma espécie de chaminé desce uma luz, vinda de cima. É uma outra espécie de absoluto, que abre para o além da morte".
Interrogou-se: "será possível o cinema ser expressão do indizível?" Afirmando de seguida: "O cinema é a expressão do dizível, a música mostra o invisível. O invisível, para mim, são os sentimentos. É a alma, o nosso espírito. É por ai que a gente vive, pelo invisível. Nunca sabemos qual o nosso futuro, ele é um enigma. Estamos no presente. E o que é o presente? É a fábrica do passado! E no passado está toda a nossa sabedoria. O futuro é o invisível, nunca sabemos o passo que vamos dar. O futuro é um enigma e como tal não podemos falar dele. O que me dá um grande descanso!" (risos).
Valeu a pena. Para o ano, no início do ano, haverá mais: é preciso continuarmos a ligar fé e razão, a arte e o sagrado, o invisível e o visível, afinal tão juntos e tão separados, continuar a perscrutar o sentido destes dias críticos (em alguma medida tempos últimos) em que estamos mergulhados, para não sermos os novos apanhados! A Pastoral da Cultura da Diocese do Porto continuará a ser uma promotora deste encontro, uma sementeira de novos possíveis e de um horizonte mais humano para a nossa vida, tão desfigurada ela anda, à semelhança de um Cristo que assim, na cruz, morreu Redentor. | Joaquim Azevedo

2012-01-07

Ontem, no Auditório de Serralves, organizado pelo Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura, decorreu o colóquio Ver o invisível, dizer o indizível.
Pelas 16 horas, o Professor Joaquim Azevedo acolheu as pessoas, que praticamente encheram o auditório, e apresentou o colóquio. Depois, duas conversas informais, moderadas por José Rui Teixeira, juntaram o escritor Jaime Rocha e o teólogo João Duque, o arquitecto Siza Vieira e escritor Valter Hugo Mãe.

João Duque, José Rui Teixeira e Jaime Rocha.


Jaime Rocha [1949] frequentou a Faculdade de Letras, em Lisboa, e viveu em Paris nos últimos anos do Estado Novo. É autor de uma vasta obra no domínio da ficção, da poesia e do teatro. Em 2010 publicou Necrophilia, livro com que termina a sua impressiva Tetralogia da Assombração: Os que vão morrer [2000], Zona de caça [2002] e Lacrimatória [2005].
João Duque [1964] doutorou-se em Frankfurt, na área da Filosofia da Arte. É professor e presidente do Centro Regional de Braga da Universidade Católica. Autor de uma vasta obra, fundamentalmente nos domínios da Teologia e da Filosofia, João Duque realizou estudos de órgão, composição e direcção coral.
Esta primeira conversa foi muito interessante, na medida em que, para além da poesia, do teatro e da música, possibilitou um olhar teológico e filosófico sobre a visão do que não se vê [do que ainda não se vê...] e sobre a dicção do que não se diz [do que ainda não se diz...]. Falámos de modos de ver e modos de dizer, de intuição, de aparições, de intérpretes e interpretações... Falámos do caos que o teatro impõe e do sentido com que a poesia reordena a realidade. Começámos a falar do modo como o poeta observa a morte e terminámos a falar do modo como o teólogo percebe o processo de desfiguração do Homem... coisas tão oníricas e hieráticas como os naufrágios, a ausência do que se vê ou a presença do que é [ainda] invisível.

Valter Hugo Mãe, José Rui Teixeira e Siza Vieira.


Siza Vieira [1933] estudou na Escola Superior de Belas Artes do Porto. A sua obra fala por si... Trata-se de um dos mais notáveis e reconhecidos arquitectos contemporâneos, e a consciência que todos temos disso vale mais do que qualquer nota biográfica. Entre os seus projectos, espalhados por todo o mundo, destaco o Museu de Serralves ou a Igreja de Santa Maria, no Marco de Canaveses.
Valter Hugo Mãe [1971] estudou Direito, mas foi o poeta que se afirmou, numa obra vasta, reunida em 2010 em contabilidade. Com o nosso reino, em 2004, nasce o ficcionista. Recebe o Prémio José Saramago em 2006, com o remorso de baltazar serapião; seguem-se o apocalipse dos trabalhadores [2008], a máquina de fazer espanhóis [2010] e o filho de mil homens [2011].
Esta segunda conversa teve uma maior componente de deriva. Falámos do processo que separa a visão da revelação e falámos do silêncio que precede a palavra... e, ainda assim, a nossa conversa foi habitada pelo que não se vê para lá do que se revela, pelo que não se diz para lá da palavra. Falámos do tempo, do tempo que é necessário entre o que se vê e o invisível, entre o que se diz e o indizível, o tempo... Falámos do trabalho partilhado e da solidão. Falámos dos olhos que não vêem e dos poetas serem esses homens que vêem dentro. Houve um instante em que Siza Vieira disse que "um poema com qualidade é um relógio suíço ao quadrado", porque é uma obra de precisão e rigor inigualável.

José Rui Teixeira, Manoel de Oliveira e Valter Hugo Mãe.


Entre as pessoas que se reuniram ontem no Auditório de Serralves, esteve Manoel de Oliveira. O que posso escrever sobre Manoel de Oliveira?... No final do colóquio o notável cineasta, com 103 anos, silenciou-nos... logo com as suas primeiras palavras: "Estou aqui atraído pelo invisível". Este colóquio ['colóquio' significa, precisamente, 'conversa'], que começara pelas 16 horas com as palavras do Professor Joaquim Azevedo, terminou, quatro horas depois, com uma intervenção inesquecível do Mestre Manoel de Oliveira. | JRT

Fotografias: Pedro Gabriel Rocha.

2012-01-05

2012-01-01

Emil Nolde [1867-1956], A Ceia.


O domingo da OITAVA DE NATAL coincide com o dia 1 de Janeiro de 2012, DIA MUNDIAL DA PAZ, 1º dia de um novo o ano.
O tempo é neutro, por isso é estranho que se enfatize tanto a novidade que este dia representa, desde Sidney ao Rio de Janeiro, desde Tóquio a Nova Iorque. Entre festejos, com mais ou menos fogo-de-artifício, entre brindes e desejos para o novo ano, as superstições e os medos dos homens desfilam de mãos dadas, com matizes milenaristas e apocalípticos quando a festa acaba e a ressaca não recorda os melhores desejos para o tempo novo que neste dia, simbolicamente, se inaugura. É normal. A festa dos loucos termina sempre mal e há em tudo isto uma loucura aceitável no sentido de razoável, razoável no sentido de aceitável.
No contexto dos escritos de S. Paulo, há três tipos de tempo: o 'chrónos', o 'aiôn' e o 'kairós'. 'Chrónos' é o tempo de vida, o espaço de tempo, o tempo biográfico que nos permite as tábuas cronológicas. 'Aiôn' é o tempo de sempre, o tempo contínuo… o tempo do mundo, das eras, dos períodos epocais, o tempo físico da imanência. 'Kairós' é o tempo oportuno para a salvação, trata-se do tempo da esperança, o presente cheio de futuro, o tempo em que a Graça de Deus redime o tempo… o tempo cronológico e o tempo aiónico.
Os cristãos também celebram o tempo cronológico e o tempo aiónico, na medida em que participam do 'chrónos' e do 'aiôn', como toda a matéria orgânica e inorgânica, das bactérias às mais longínquas estrelas… mas fundamentalmente celebram o 'kairós', o tempo kairológico, esse presente já não redutor e ensimesmado, esse presente criativo e partilhado, em que participamos de um projecto de redenção e que nos permite dizer que hoje celebramos a Paz como condição de redenção universal.
Celebrar a Paz não significa apenas desejar a Paz, significa que nos compreendemos como construtores da Paz, responsáveis pela Paz, das nossas casas às ruas das nossas cidades e aldeias, do Paralelo 38 N [que separa a Coreia] às trincheiras e valas comuns que há no mundo, à sombra de muros e muralhas ainda por derrubar. Falo da Paz que começa no momento em que as relações deixam de ser relações de poder, entre irmãos ou esposos, entre pais e filhos, entre vizinhos… Falo da Paz como projecto de vida, em contagem crescente dos dias para os meses, dos meses para os anos, dos anos para os séculos… O tempo kairológico a invadir o tempo cronológico e o tempo aiónico, e a redimir as nossas vidas. | JRT

2011-12-25



É algo poético, talvez… o que ainda não sabemos, o que só pressentimos, o frio nestas latitudes, nestes dias pequenos de Dezembro. É curioso pensarmos que o Natal de Jesus está tão distante de nós em tempo e espaço, em clima e contexto… e ainda assim, buscamos uma intimidade intensa, como se fosse connosco, parte de nós, das nossas memórias, algo tão impressivo como os nossos dias mais impressivos. Sim, é mais fácil abeirarmo-nos do presépio do que da cruz…
É curioso que se a cruz nos traz o mistério da Morte, não é o Natal, mas a Ressurreição, que nos traz o mistério da Vida. O que é que nos dá o Natal? Muito pouco, quase nada… e é esse o mistério do Natal, o que ainda não sabemos, o que só pressentimos. O que o Natal nos dá é uma comovida e poética expressão do Amor de Deus: não sabíamos, nem sequer pressentíamos… que Deus pudesse acontecer tão perto de nós. O mistério do Natal é esse tão perto de nós. O mistério do Natal é a humanidade que se esconde nesse tão perto de nós. É tão perto de nós que nem nos parece possível que possa ser Deus. E creio que foi por isso que me fiz cristão, porque a verdade está onde poucos a procuram, porque Deus está onde poucos o procuram… e o Evangelho é desconcertante, porque nos diz – sem assombros ou complexos recursos literários, mas com uma simplicidade desarmante – que Deus decidiu redimir a humanidade e, no seu projecto de salvação, dá ao mundo e ao tempo o seu Filho… e este Filho de Deus é o Filho do Homem, e nasce tão humano, tão frágil, num contexto tão humilde, tão perto de nós… e nasce tão longe das luzes da ribalta, tão longe do Império, tão longe dos reis e dos príncipes do mundo, tão longe dos sacerdotes; nasce em segredo, tão perto de nós. É o mistério do Natal… ainda não sabemos, mas já pressentimos. Creio que foi por isso que me fiz cristão… o resto vem depois. Não é difícil acreditar na divindade de Jesus… hoje [como há 2000 anos…] não escasseiam pretensos deuses, deuses para isto e deuses para aquilo, deuses para tudo e deuses para nada; difícil é acreditar na humanidade de Jesus… hoje [como há 2000 anos…] é tão difícil acreditar no Homem. E esse é o mistério do Natal, como num poema de José Tolentino Mendonça:

"O Seu advento encontra-nos sempre impreparados
e, contudo, este é o momento em que
por puro dom se nasce.

A Sua vinda testemunha o que não sabíamos ainda:
a nossa frágil humanidade é narração
da autobiografia de Deus."

2011-12-22



Quem se recorda de um homem desconhecido que inesperadamente se apresentou na varanda de S. Pedro de Roma, no dia 16 de Outubro de 1978? Foram estas as suas palavras: "Não tenhais medo! Abri, escancarai as portas a Cristo! Ao Seu poder salvífico abri os confins dos Estados, os sistemas económicos como também os políticos, os vastos campos da cultura, da civilização e do desenvolvimento. Não tenhais medo!" ["Non abbiate paura!"]

2011-12-20



Na sequência do trabalho que realizámos entre 2010 e 2011, apresentamos um colóquio subordinado ao tema: ver o invisível, dizer o indizível. Este colóquio reunirá, em torno de duas conversas, o pintor Júlio Pomar e o escritor Jaime Rocha, o arquitecto Siza Vieira e o escritor Valter Hugo Mãe; decorrerá no Auditório de Serralves, entre as 16 e as 20 horas do dia 6 de Janeiro próximo.

Procuramos com este colóquio, promover uma reflexão consequente no âmbito do diálogo entre a Fé e a Cultura, nas suas expressões artísticas e literárias. Com efeito, desafiados pela expressão de Heiner Müller: "Escrevo sempre mais do que aquilo que sei", ponderamos a acuidade desta expressão, formulada em termos do que se vê e do que se diz.

A entrada é gratuita mediante o levantamento de bilhete na recepção de Serralves e está sujeita à lotação do Auditório.

2011-12-15

No final de 2010, o P. José Tolentino Mendonça pediu-me um texto para o Observatório da Cultura sobre O diálogo entre a Fé e a Cultura no meio editorial. Acho que vale a pena relê-lo:



Por estes dias, enquanto trabalhava num dossier sobre Universidade Católica Editora – Porto, perguntei a mim próprio qual deveria ser o seu contributo para a Igreja em Portugal, para as faculdades de Teologia, mas também para as comunidades; na formação pessoal dos cristãos, mas também no diálogo entre a Fé e a Cultura. Diante da minha biblioteca, apartei mentalmente os livros passíveis de serem integrados numa área abrangente de mundividência cristã, da teologia dogmática à história da Igreja, da exegese bíblica à espiritualidade; ignorei os livros estrangeiros e procurei concentrar-me em edições relevantes: restaram-me um conjunto de livros, particularmente da década de 60 do século passado, divididos entre a Livraria Morais Editora e a Livraria Tavares Martins, e, mais recentes, os livros da colecção 'Teofanias', da Assírio & Alvim.
Naturalmente, trata-se de uma abordagem pouco criteriosa a uma questão que merecia um estudo aprofundado, mas creio que, ainda assim, esta perspectiva denuncia um diagnóstico evidente. Com efeito, só há duas hipóteses de ler/adquirir os grandes documentos da tradição cristã: resta-nos importá-los ou, no caso de terem sido traduzidos, há ainda a possibilidade de serem encontrados em livreiros/alfarrabistas.
É evidente que este não é apenas um meio privilegiado para o diálogo entre a Fé e a Cultura, trata-se de uma condição absolutamente necessária para que esse diálogo aconteça e seja consequente. Pode parecer uma consideração pretensiosa, mas não acredito que seja possível esse diálogo sem leituras partilhadas e só poderá haver leituras partilhadas se tivermos a capacidade de traduzir ou recuperar um conjunto de autores sem os quais estaremos irremediavelmente limitados.
Creio que seria necessário um significativo investimento na edição criteriosa de obras de referência, com cuidada apresentação estética e uma efectiva presença no mercado. Sem estes pressupostos, dificilmente criaremos um espaço mais abrangente, onde possam surgir projectos como a recente editora Pedra Angular, que privilegia o território da religião e da espiritualidade, não numa perspectiva confessional, mas numa relação mais ampla e complexa com a cultura.
Falar sobre o diálogo entre a Fé e a Cultura no meio editorial pressupõe, antes da definição de planos editoriais, a definição de um plano estratégico. Para a Igreja esse é um desafio essencial, não só por uma particular vocação editorial, mas sobretudo pelo seu fundamento dialogal. | JRT

2011-12-05



Rodrigo Leão é um acontecimento poético, tem na música Lisboa e Buenos Aires, o mundo inteiro, as mãos e os olhos bem abertos, um livro, o mar ou um beijo de olhos fechados... e coração, tanto coração, coração apertado contra coração, luz morna, noite vagamente febril. Rodrigo Leão é polimórfico, poliédrico, polifónico, polissémico, polissílabo; é um daqueles seres humanos que justifica que Deus tenha criado o Homem à sua imagem e semelhança. E A Montanha Mágica representa a apologia de uma beleza muito rara, híbrida, mestiça às vezes... com especiarias, ervas aromáticas, cores quentes e infusões... café e terracota, um velho impassível debaixo do alpendre ou crianças à chuva, sem guarda-chuva, só Deus nas mãos abertas, nos olhos fechados... | www.rodrigoleao.pt

2011-12-01

No dia 27 de Novembro, o Fado foi reconhecido como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Dois livros muito interessantes para contextualizar este reconhecimento: Maria Luísa Guerra, Fado: alma de um povo [Imprensa Nacional, 2003]; Clara Bertrand Cabral, Património Cultural Imaterial: convenção da UNESCO e seus contextos [Edições 70, 2011].


Mariza . Há uma música do povo [Fernando Pessoa / Mário Pacheco]

2011-11-10

© Omar Cleunam


Tudo o que o Estado tem e faz deve-o ao facto de o ter tirado aos cidadãos por um preço que estes nunca recuperarão, pois é sempre superior ao que é devolvido e ainda por cima, devolvido em condições sociais muito piores do que aquelas que os cidadãos e as suas organizações poderiam criar e usufruir em comum. Acontece, entre outras coisas, que estas instituições defendem o mesmo que o Estado, ou seja, que o Estado as apoie directamente, ou seja, depois de ter sido retirado o poder [económico, mas não só, sobretudo político], o poder de acção dos cidadãos e das suas organizações. A Igreja e outras instituições sociais autónomas, perderam, ao longo dos tempos, a sua autonomia e fizeram-se participantes deste poder estatal ou poder único e centralmente gerido. A Igreja nem está a ser capaz de distinguir a Doutrina Social da Igreja do “Estado Social”! Para muitos católicos é uma e a mesma coisa. E assim, está tudo bem, bate a bota com a perdigota. Bateria, mas não bate. Se não se estivesse, com a entrega dos impostos, a entregar todo o poder de decisão local e das pessoas concretas, o fazerem face a seu modo aos seus problemas concretos, de modo auto e heteroregulado. Mesmo o dinheiro oriundo dos donativos voluntários dos “fiéis”, que pretendem dar vida espontâneamente às expressões agregativas das comunidades, vai ter de se misturar com o dinheiro oriundo do Estado, tendo de passar a integrar e obedecer às regras deste, nacionais, centralistas e autoconsumidoras de parte importante desses recursos, perdendo toda a sua originalidade, ou seja, grande parte do poder que os cidadãos católicos lhe conferem ao entregarem esses recursos e esse poder na mão da Igreja. A Igreja encostou-se ao Estado dito social de um modo escandaloso, promovendo-o de modo despudorado. Se ele se mantém em vigor, com tanta dificuldade em se tomar em linha de conta esta mecânica subreptícia do Estado controlador, despesista e devorador de grande parte dos recursos arrecadados à força aos cidadãos, sustentado na violência da lei, é em grande parte devido a este poder que a Igreja lhe tem vindo a dar, gratuitamente ou a troco de uns trocos.
A DSI tem como pilar da sua doutrina, além da dignidade da pessoa humana, a busca do bem comum, a subsidiariedade e a solidariedade, o célebre número 160 do Compêndio da DSI [Principia, 2005]. E por esta ordem, sendo que na primeira tudo o resto de fundamenta. E a busca do bem comum, esse “conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição”, implica toda a sociedade, a todos os seus níveis, na busca do bem comum, “o bem de todos os homens e do homem todo” [164 e 165]. E a DSI é clara ao assinalar, sem dúvidas, que “todas as sociedades de ordem superior devem pôr-se em atitude de ajuda [subsidium] – e portanto de apoio, promoção e incremento – em relação às menores” e ao referir que “assim como é injusto subtrair aos indivíduos o que eles querem efectuar com a própria iniciativa e trabalho, para o confiar à comunidade, do mesmo modo, passar para uma sociedade maior e mais elevada o que as comunidades menores e inferiores podiam realizar, é uma injustiça. [...] O fim natural da sociedade e da sua acção é coadjuvar os seus membros, e não destrui-los nem absorvê-los” [186, citando a Quadragesimo Anno, de 1931].
As palavras escolhidas foram, destruição e absorção. Não foram outras. E é isso que tem acontecido, a destruição dos bens dos cidadãos, que foram colocados ou coerciva ou espontâneamente ao serviço do bem comum, absorvendo-os para alimentar uma gigantesca máquina do dito “Estado social” [que não é mais do que um Estado estatal], com todo o beneplácito da Igreja portuguesa! O Estado, só agora é que parece que abrimos os olhos, devora quase metade do que devolve em oportunidades sociais e estas são pessimamente geridas porque subordinadas a princípios que não o do bem comum, da subsidiariedade e da solidariedade [como supostamente diz que obedece]. O bem dos amigos primeiro, dos correlegionários partidários depois, o bem da tribo a seguir e finalmente, o bem dos cidadãos, a que chamam contribuintes. Até esta designação é emblemática: quem alimenta tudo isto, para o serviço da dignidade das pessoas todas e de cada pessoa, é apelidado de contribuinte, de ajudante, de subsidiário, pois está a contribuir para um bem dito maior, que o Estado definirá qual seja em cada momento. É a completa inversão dos princípios, que arrasta a inversão dos valores!
E a Igreja aceita que as suas instituições autónomas entrem quase todas neste ritmo, nesta cadência, ao longo de muitas décadas, transformando os “fiéis” em contribuintes, subvertendo os seus princípios e valores e contribuindo para este desmando brutal a que chegámos, seja na Grécia, seja em Portugal ou na Itália ou na Espanha. A dívida pública cresceu para valores incomportáveis e, como o nosso dinheiro já não chegava, foi também o dinheiro dos bancos e quando aí se chegou é que se decidiu parar: quando já não havia mais dinheiro para gastar. Ninguém o dava, nem aqui nem em qualquer lugar do mundo. Como somos enganados e como deixámos a Sabedoria à porta da nossa casa, sem nada lhe ligar! O “Estado social” é um tremendo equívoco em que entrou quase toda a sociedade, mas onde a Igreja continua a jogar um tremendo jogo de infidelidade.
Como a crise é, também para a Igreja, uma grande oportunidade! | JA

2011-11-01

© Omar Cleunam


O dia 1 de Novembro é muito importante na vida da Igreja, na medida em que implica a sua capacidade de reflectir profundamente sobre si mesma. E esse é um desafio para cada cristão neste dia de todos os santos. Quando me refiro à importância deste dia na vida e na tradição da Igreja, não penso na Igreja como instituição, penso nela como projecto; e quando me refiro à importância deste dia na vida de cada um de nós, não penso em cada um de nós como indivíduo, ou como cidadão, penso em cada um de nós como projecto. E eu sei que a Igreja é uma instituição, com tudo quanto essa condição implica; e sei também que nós somos o que somos, enquanto representamos um papel social, enquanto fazemos parte de inúmeras máquinas com as suas complexas engrenagens… Mas hoje a Igreja lembra a si própria, e a cada um de nós, que todos somos verdadeiramente o que ainda não somos, e não o somos porque ainda fazemos aquilo que verdadeiramente não queremos. Eu repito: a Igreja lembra a si própria, e a cada um de nós, que todos somos verdadeiramente o que ainda não somos, e não o somos porque ainda fazemos aquilo que verdadeiramente não queremos. É só isso. E por isso participamos do pecado. E também por isso participamos da santidade. E por tudo isso somos um projecto, porque há uma tensão escatológica entre o que já somos e o que ainda não somos, porque estamos em construção, em conversão permanente, paciente… porque estamos a caminho; somos um projecto porque a Igreja não é um dado adquirido, a Igreja é ainda um estaleiro e cada um de nós participa dessa dupla condição de obreiro e matéria-prima. E é por tudo isso que vivemos em-Cristo e na-Igreja, e experimentamos as alegrias e as esperanças, os medos e as angústias da nossa condição humana, enquanto caminhamos para Deus: somos a Cidade do Homem no coração da Cidade de Deus, percorremos os Caminhos do Mundo rumo à Cidade de Deus, cicatrizamos as Feridas do Tempo porque já habitamos a Cidade de Deus… e no entanto estamos a caminho, com a Comunhão dos Santos no coração, como uma promessa.Sal da terra e luz do mundo, projecto de Deus. Somos chamados como Abraão: vocação, chamamento… Fala-se no dia de oração pelas vocações. Há vocações? Não... há carismas, que são modos diferentes de responder ao chamamento; mas o chamamento é só um, só há uma vocação: é a vocação universal à santidade. Sereis santos como eu sou Santo, diz o Senhor. E nós respondemos nos limites da nossa compreensão, nos limites das nossas possibilidades… nos nossos limites, contingências, fragilidades; e é esse sentido humano que Deus redime.Hoje é dia de todos os santos, é um dia para reflectirmos sobre o que já somos e sobre o que ainda não somos. No final deste dia a Igreja convida-nos a reflectir sobre os nossos irmãos que morreram na esperança da ressurreição, porque temos consciência que há uma parte do Caminho que temos que ser nós a percorrer, mas, quando o cansaço se abate sobre o nosso corpo e as distâncias ou os obstáculos parecem insuperáveis, intransponíveis, é o amor de Deus que nos aconchega e ampara, e nos conduz até à meta.Hoje é dia de todos os santos, é um dia para percebermos que a Igreja não tem futuro… a Igreja é o Futuro! Não falo da instituição, falo do projecto em que cada um de nós participa, nessa dupla condição de obreiro e matéria-prima; porque se não respondermos afirmativamente à vocação universal à santidade, não teremos futuro, mas se respondermos, cada um de nós será o Futuro. Por tudo isto é tão importante o Presente e essa voz que hoje nos fala: não deixes que o tempo te passe a perna, não deixes que o mundo te passe por cima, não deixes que a vida te passe ao lado; levanta-te e caminha. | JRT

2011-10-25

© Omar Cleunam


Parece pretensioso que alguém com formação teológica, no contexto que partilhamos, aceite falar ou escrever sobre a “crise”. De facto, interessa-me a crise desde a perspectiva teológica. É verdade que também a teologia pode ser considerada em crise; por estes dias, até Deus parece afectado pela abrangente consciência de crise, já que há muito se falava nas crises que iam desgastando os sistemas religiosos tradicionais e a experiência individual do homem ocidental no âmbito da espiritualidade. A questão é certamente outra, tão envolvente como todas estas: que tipo de crise nos afecta realmente? Sem relativizar aquilo que não é passível de ser relativizado, como é o caso desde a perspectiva económica, importa afirmar que a crise, como conceito e como contexto de mundividência geral, é fundamentalmente um problema que afecta o homem protologicamente, em relação à origem, no estabelecimento de um processo consequente de identidade, e escatologicamente, em relação ao fim último, considerado em termos meta-históricos. A crise é a crise do homem. É verdade que estamos em crise desde que existe auto-consciência; é também verdade que, por vezes, nos afecta mais a consciência de crise do que a própria crise ou os seus efeitos materiais. É ainda verdade que a crise do presente é como uma enfermidade actual: condiciona o sentimento de que nunca sofremos no passado como estamos a sofrer neste momento. E se tudo isto é verdade, também é certo que afecta significativamente o “homem pós-moderno”, reconhecido nas suas fragilidades estruturais, ou seja, em crise desde que lhe foi diagnosticada a pós-modernidade, uma espécie de pandemia que ataca os indivíduos com depressões de todos os tipos e as sociedades com crises de variadíssimas espécies. Seja como for, não me parece irrelevante que se fale em crises que afectam as famílias e outras estruturas sociais de base, como a vizinhança ou as associações; não me parece despropositado que se fale em crise de relações, nem sequer me parece impróprio que se fale em crise de identidade, na medida em que esta crise, que partilhamos no espaço e no tempo, parece-me fundamentalmente uma crise de identidade, de um homem que não sabe quem é, de onde vem ou para onde vai.Pode ser, de facto, uma crise de referências, no que concerne a estruturas tradicionais; pode ser uma crise de relação com Deus; mas resulta fundamentalmente numa crise de identidade, de quem talvez só reconheça que lhe falta poder de compra, um emprego ou, em última análise, o alimento, esse “pão nosso de cada dia” que faltou tantas vezes em conjunturas em que não se falava de crise. | JRT

2011-10-20

Exposição IV Prémio de Arquitectura Religiosa "Frate Sole"

Escola das Artes – Universidade Católica. Porto
14 de Outubro a 4 de Novembro



Prémio atribuído pela fundação italiana "Frate Sole", que distinguiu com o primeiro lugar, na sua edição de 2008, o convento cisterciense de Novy Dvur, na República Checa, do arquitecto inglês John Pawson. A exposição é composta por 17 páineis e apresenta além do primeiro, os cinco segundos-prémios, as três menções honrosas, cinco finalistas e dois outros projectos concorrentes.

O Prémio de Arquitectura Religiosa "Frate Sole"
A Fundação Frate Sole foi criada com o objectivo de promover a excelência artística das igrejas, encorajando activamente a sua construção e sensibilizando as comunidades para que as novas igrejas sejam expressão de autênticas qualidades artísticas e místicas, capazes de criar espaços onde se manifeste a presença de Deus.
Com este objectivo, a Fundação Frate Sole criou, em 1996, o Prémio Internacional de Arquitectura Religiosa "Frate Sole", a ser atribuído de quatro em quatro anos no dia 4 de Outubro, festa de São Francisco de Assis, ao arquitecto que nos dez anos anteriores concebeu o mais significativo edifício religioso de confissão cristã. O vencedor é galardoado com a escultura "Ciel d'Oro", da autoria do P. Constantino Ruggeri, além de receber um prémio monetário no valor de 150 mil euros.
Até à data, foram atribuídos quatro prémios pela Fundação Frate Sole. Em 1996, foi vencedor o arquitecto Tadao Ando, pelos projectos da Capela do Monte Rokko, em Kobe [1985-86], Capela da Água, em Tomamu [1985-88] e Igreja da Luz, em lbaraki [1988-89]. Em 2000, o primeiro prémio foi entregue ao arquitecto Álvaro Siza Vieira, pela Igreja de Santa Maria, em Marco de Canaveses, e, quatro anos depois, ao arquitecto Richard Meier, autor da Igreja de Deus-Pai de Misericórdia, em Tor Tre Teste, Roma.

2011-10-15

© Omar Cleunam


Vivemos um tempo surpreendente! O tempo da crise, aquele em que o sol bate de frente e os fios da teia surgem vivos diante dos nossos olhos. É um tempo negro em que, paradoxalmente, se pode ver muito mais claro. Um tempo muito duro e difícil para muitos; mas, até nessa rudeza injusta, nesse abandono indigno, nessa luz que cega, há uma voz que fala. Um chamamento ao que é o mais importante, ao essencial, ao retorno ao fio do que nos sustenta realmente e não apenas aparentemente. Construímos em dois séculos um castelo de cartão, cheios de luzes e movimento, um carrossel de imperativos e de necessidades, a maioria das vezes sem qualquer encontro, sem qualquer fala, sem qualquer escuta: o que é que o outro quer? Onde é que ele está? De que é que realmente precisa? Não, pensamos que já tudo está dito e sabido. O progresso!
Escutemos, desliguemos a nossa música, fechemos o livro da nossa retórica, façamos silêncio e ouçamos. Muitas horas e dias. Ouçamos. É preciso que as pessoas tenham tempo para se exprimir, na sua linguagem própria e não naquela em que queremos ouvi-los, sobretudo aqueles que se encontram em situações de maior vulnerabilidade. Eles são o fio de prumo. Em algumas áreas é quase necessário recomeçar. O que há em excesso neste ciclo de vida comum, que está a levar-nos à loucura, são os fugitivos ao pelotão. Iluminados, resplandecentes, carregados de soluções, mesmo para os problemas que já não existem. Somos uma sociedade de fugitivos do pelotão, em que só os mais fracos e pobres ficaram para trás – e tudo fizemos para que ficassem, mesmo sem estarmos porventura a dar por isso. Hoje, alimentamos o seu atraso. Por isso, a crise, a radicalidade desta crise, que não é mais uma pequena curva de um ciclo económico. Pára e olha para o fio que está diante dos teus olhos. Que vês?
Estamos nas mãos de curandeiros e adivinhos, vestidos com a pele de economistas e promotores do desenvolvimento social e urbano. Isto vai acabar mal e parece mesmo que a história nada garante. O passado não nos ensina mesmo nada! Só o sol a bater de frente! | Joaquim Azevedo