2012-10-26

Ia uma mulher com as duas filhas à minha frente, no passeio. As meninas teriam uns 8 e 5 anos. A mãe estava com pressa e ia à frente. As meninas iam atrás, a brincar, sem pressa nenhuma. A mãe estava irritada ou só desassossegada, ou só com pressa, e repreendia as filhas. Pensei que muitas vezes estou desassossegado, com pressa. Muitas vezes repreendo os meus filhos por não corresponderem ao meu desassossego e à minha pressa. Depois pensei que a minha mãe não me contaminou com pressa nem envenenou a minha infância com os seus desassossegos. A minha mãe encheu a minha infância de tempo, ensinou-me a esperar que o bolo cozesse no forno, que o chá de cidreira fervesse na chaleira. A minha mãe era forno e eu sou microondas. Depois pensei que se não tiver tempo, não posso abençoar com tempo a infância dos meus filhos. Depois pensei que a filha de uma amiga vive há alguns anos com um cancro agressivo e que, nessas circunstâncias, mesmo nestes tempos sem tempo, uma mãe não pode ter pressa, porque cada minuto é uma bênção incomensurável. E depois pensei que, por vezes, permitimos que certas escolhas e certos modos de vida nos desumanizem, permitimos que a pressa e o desassossego desfigurem a experiência humanizadora do tempo. | José Rui Teixeira