2012-04-10

© Omar Cleunam



A Economia Social e o reencontro do laço social

Esteve connosco, na Universidade Católica, a economista Elena Lasida, do Instituto Católico de Paris (Vice-Directora da FASSE). Deixo aqui uma brevíssima nota de uma reflexão que nos foi proposta, na senda do seu livro: Le goût de l'autre. La crise, une chace pour réinventer le lien. Albin Michel, 2011. É mesmo só para sinalizar, abrir o horizonte da curiosidade e convidar a conhecer mais.
Elena Lasida relembra que economia é relação e, na senda dos institucionalistas, vem propor uma leitura original, combinando a tradição cultural bíblica com uma reflexão actual sobre o mundo e a economia, o seu modo de regulação. Na sua óptica, a economia tem uma natureza essencialmente social, sustentada na relação humana. E é da sua natureza não ter que ser completamente subordinada à relação mercantil. Um exemplo: a aliança e o contrato. No contrato, procuramos acautelar os interesses de ambas as partes e proteger os nossos interessses face aos do outro e, em termos sociais, os contratos visam também proteger os mais débeis, pela via da lei e do Estado de Direito. A aliança vai mais longe e é mesmo de outra natureza. Deus fez uma aliança com o seu povo, por intermédio de Noé, depois do dilúvio. Deus fez uma promessa a Noé, no quadro de um compromisso unilateral, de nunca mais destruir a terra através de um dilúvio. Mas esta promessa muda o estatuto do homem diante de Deus: de ora em diante ele será tão responsável como Deus por esta terra, fazendo dela um local de vida e não de morte e corrupção. O homem é co-criador da vida. Renunciando Deus à violência, mostra um caminho novo ao homem. Ele mostra que se pode lutar contra o que destrói as relações com aquilo que as constrói. Pode-se combater o que divide através do que une, a morte através do que dá a vida. Entre dos modos de conter a violência e de pensar a criação, podemos seguir o modelo do contrato, que se baseia nas condições a respeitar e nas sanções em caso de incumprimento, e o da aliança, que apela a uma coresponsabilização na obra da criação.
A economia solidária está cheia de outras relações económicas que não as puramente fundadas neste modelo do contrato. No seu entender, há três tipos de deslizamentos e de fronteiras sobre as quais se deve trabalhar, hoje, unindo e não excluindo: uma que oscila entre a satisfação constante das "necessidades" e a procura de acesso aos bens, por um lado, e a cocriação, por outro. Esta fronteira deve abrir à manifestação das capacidades criativas de cada pessoa e à criação em conjunto dos mundos possíveis; outra que oscila entre a dimensão quantitavia e qualitativa da economia. Esta abre a possibilidade de valorização (dar valor) a actos sem equivalente monetário, a relação gratuita, a presença junto de alguém que sofre, o dom; a terceira é a que oscila entre uma lógica individual de consumo e de individualização social e de procura de independência e uma lógica de interdependência, de valorização da relação. Fronteiras a rever e a compreender.
Elena Lasida propõe uma aproximação antropológica à economia, na medida em que esta é relação e na relação, no diálogo e no encontro é que se faz a experiência da transcendência. Do que se trata, afinal, é de outro modo de pensar o desenvolvimento das sociedades, reservado para cada pessoa um lugar diferente, mais humano e mais digno. Por exemplo, diante das competências dos trabalhadores desempregados, opta-se quase sempre po ir à procura dos trabalhadores verificando se são capazes de responder às necessidades dos mercados de trabalho e o conjunto da sociedade pouco se perguntam sobre as competências de cada pessoa e sobre as suas possibilidades (e as nossas compossibilidades) para realizar actividades e trabalhos, com os quais se quer comprometer, certamente portadores de estilos de vida mais sóbrios e dignos e factores de maior realização humana.
São temas a aprofundar, certamente.
Mais um pontapé de saída, entre muitos dados (com Luigino Bruni) e a dar, para atribuirmos, na prática, outro valor à economia social e solidária no seio da Universidade Católica Portuguesa e da sociedade portuguesa, que dela tanto necessita. | Joaquim Azevedo