2012-01-07

Ontem, no Auditório de Serralves, organizado pelo Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura, decorreu o colóquio Ver o invisível, dizer o indizível.
Pelas 16 horas, o Professor Joaquim Azevedo acolheu as pessoas, que praticamente encheram o auditório, e apresentou o colóquio. Depois, duas conversas informais, moderadas por José Rui Teixeira, juntaram o escritor Jaime Rocha e o teólogo João Duque, o arquitecto Siza Vieira e escritor Valter Hugo Mãe.

João Duque, José Rui Teixeira e Jaime Rocha.


Jaime Rocha [1949] frequentou a Faculdade de Letras, em Lisboa, e viveu em Paris nos últimos anos do Estado Novo. É autor de uma vasta obra no domínio da ficção, da poesia e do teatro. Em 2010 publicou Necrophilia, livro com que termina a sua impressiva Tetralogia da Assombração: Os que vão morrer [2000], Zona de caça [2002] e Lacrimatória [2005].
João Duque [1964] doutorou-se em Frankfurt, na área da Filosofia da Arte. É professor e presidente do Centro Regional de Braga da Universidade Católica. Autor de uma vasta obra, fundamentalmente nos domínios da Teologia e da Filosofia, João Duque realizou estudos de órgão, composição e direcção coral.
Esta primeira conversa foi muito interessante, na medida em que, para além da poesia, do teatro e da música, possibilitou um olhar teológico e filosófico sobre a visão do que não se vê [do que ainda não se vê...] e sobre a dicção do que não se diz [do que ainda não se diz...]. Falámos de modos de ver e modos de dizer, de intuição, de aparições, de intérpretes e interpretações... Falámos do caos que o teatro impõe e do sentido com que a poesia reordena a realidade. Começámos a falar do modo como o poeta observa a morte e terminámos a falar do modo como o teólogo percebe o processo de desfiguração do Homem... coisas tão oníricas e hieráticas como os naufrágios, a ausência do que se vê ou a presença do que é [ainda] invisível.

Valter Hugo Mãe, José Rui Teixeira e Siza Vieira.


Siza Vieira [1933] estudou na Escola Superior de Belas Artes do Porto. A sua obra fala por si... Trata-se de um dos mais notáveis e reconhecidos arquitectos contemporâneos, e a consciência que todos temos disso vale mais do que qualquer nota biográfica. Entre os seus projectos, espalhados por todo o mundo, destaco o Museu de Serralves ou a Igreja de Santa Maria, no Marco de Canaveses.
Valter Hugo Mãe [1971] estudou Direito, mas foi o poeta que se afirmou, numa obra vasta, reunida em 2010 em contabilidade. Com o nosso reino, em 2004, nasce o ficcionista. Recebe o Prémio José Saramago em 2006, com o remorso de baltazar serapião; seguem-se o apocalipse dos trabalhadores [2008], a máquina de fazer espanhóis [2010] e o filho de mil homens [2011].
Esta segunda conversa teve uma maior componente de deriva. Falámos do processo que separa a visão da revelação e falámos do silêncio que precede a palavra... e, ainda assim, a nossa conversa foi habitada pelo que não se vê para lá do que se revela, pelo que não se diz para lá da palavra. Falámos do tempo, do tempo que é necessário entre o que se vê e o invisível, entre o que se diz e o indizível, o tempo... Falámos do trabalho partilhado e da solidão. Falámos dos olhos que não vêem e dos poetas serem esses homens que vêem dentro. Houve um instante em que Siza Vieira disse que "um poema com qualidade é um relógio suíço ao quadrado", porque é uma obra de precisão e rigor inigualável.

José Rui Teixeira, Manoel de Oliveira e Valter Hugo Mãe.


Entre as pessoas que se reuniram ontem no Auditório de Serralves, esteve Manoel de Oliveira. O que posso escrever sobre Manoel de Oliveira?... No final do colóquio o notável cineasta, com 103 anos, silenciou-nos... logo com as suas primeiras palavras: "Estou aqui atraído pelo invisível". Este colóquio ['colóquio' significa, precisamente, 'conversa'], que começara pelas 16 horas com as palavras do Professor Joaquim Azevedo, terminou, quatro horas depois, com uma intervenção inesquecível do Mestre Manoel de Oliveira. | JRT

Fotografias: Pedro Gabriel Rocha.