2012-01-10

Vimos o invisível, dissemos o indizível. E há ainda tanto para ver e tanto para dizer! No dia 6 de Janeiro, em Serralves, a Pastoral da Cultura da Diocese do Porto promoveu um colóquio Ver o invisível e dizer o indizível, com a realização de duas mesas redondas: uma com o teólogo João Duque e o poeta Jaime Rocha e outra com o arquiteto Siza Vieira e o escritor Valter Hugo Mãe, moderadas por José Rui Teixeira, do Secretariado.
Foi uma tarde memorável, com um auditório quase cheio, ainda que se tratasse de uma iniciativa pioneira e arriscada, promovida a meio de uma tarde de sexta-feira. Ela ocorre na sequência de um trabalho que a Pastoral da Cultura do Porto tem vindo a desenvolver, com artistas do Porto, em torno da arte e do sagrado.
As crises são tempos importantes para a (des)aprendizagem e os artistas podem aproximar-nos dos novos verbos e do Verbo. Assim se fez, neste dia de início do ano de 2012, um ano proclamado como o de todas as crises. Os poetas, e as crianças, como diz Manoel de Barros, ao mudarem a função de um verbo, fazem o verbo "delirar". Aos poetas cabe o processo de criação, "fazer nascimentos".
A sessão deambulou em torno do acto e do tempo de criar, do modo e da função do processo criativo. Jaime Rocha, poeta e dramaturgo, falou-nos da "sua" Nazaré e dos pescadores que falavam com o mar, percorrendo as longas areias, partilhando com ele a sua dor, a perda dos companheiros e dos familiares desaparecidos que tardavam a chegar, enquanto as mulheres, em casa, conversavam, em voz alta, com os seus santos devotos e com Deus. "O poeta dá vida a esse sofrimento, narra o que está para lá das coisas, escavando no seu interior". Confessa que a sua poesia pretende construir uma ordem, enquanto o seu teatro remete-o para o caos, para uma desordem que explode, mas ambos concorrem para o seu equilíbrio pessoal.
João Duque enquadrou o indizível e o invisível no acto de criação, sublinhando que "O poeta não produz, dá vida". Assinalou a dicotomia entre o trabalho do compositor que dá vida ao silêncio e ao som e o do instrumentista, que é quem executa a obra e produz a música. O invisível e o indizível estão na obra que nasce, na obra de arte, onde é possível encontrar o sentido das coisas. "É entrando no sentido das coisas que vamos dando a ver a outros esse sentido e descobrindo, continuamente, o que não se vê, mas que está lá para que o vejamos". Por isso, o invisível está contido no visível o que constitui um grande repto para todos nós: "invisível é o que habita no interior do que está lá, o que permite ouvir os sons e os sentidos que habitam no interior das palavras ou ouvir as palavras e sofrer os efeitos cerebrais que elas nos provocam."
Jaime Rocha evocou os quadros de Magritte onde "já está tudo lá dito" e tudo quanto eles lhe transmitem e inspiram.
João Duque, apontando o símbolo do Secretariado Diocesano, projectado na tela, "Cristo", de José Rodrigues, sublinhou a necessidade de, ao olharmos Cristo desfigurado, não deixarmos de olhar para o homem que está à nossa volta, cuja desfiguração está tão escondida e tão invisível que urge encontra-la. A arte tem esta "função" de trazer para fora a desfiguração, para que, olhando-a, a possamos ver, sentir e interpretar como um apelo permanente à paz e à justiça.
Na segunda parte deste "encontro", Valter Hugo Mãe, a propósito do acto da criação literária, afirmou: "escrevo para dizer o que não sei; escrever é ir à procura do que não sei, do melhor que eu posso ser".

Joaquim Azevedo, Siza Vieira e Manoel Oliveira.


Uma das surpresas desta bela tarde foi a presença do cineasta Manoel de Oliveira, uma vez que, imediatamente, a realidade se alargou: de quatro passamos para cinco palestrantes.
Manoel de Oliveira começou por revelar uma capacidade única de se rir daquilo que ainda o faz correr. Do alto dos seus 103 anos, disse: "Não sei se tenho muito para dizer, nós fazemos fitas. Fitas não são mais do que fitas!" Referindo-se a Álvaro Siza, falou de duas das suas obras: "A Casa de Chá de Leça e a Igreja do Marco, duas obras excepcionais de Siza Vieira", acrescentando: "A Casa de Chã não se cinge ao espaço interior, expande-se para o oceano e para o absoluto. Os rios desaguam no absoluto que é o mar e perdem a personalidade de rio. A água do mar evapora-se e assim origina novos rios que voltam para o mar" e finalizou dizendo: "A Casa de Leça abre para o infinito, para o transcendente".
Sobre a igreja do Marco sublinhou a dimensão espiritual: "A porta, altíssima, parece ser a porta para o céu e quando se entra, o Cristo aparece à esquerda na parte detrás do altar, onde de uma espécie de chaminé desce uma luz, vinda de cima. É uma outra espécie de absoluto, que abre para o além da morte".
Interrogou-se: "será possível o cinema ser expressão do indizível?" Afirmando de seguida: "O cinema é a expressão do dizível, a música mostra o invisível. O invisível, para mim, são os sentimentos. É a alma, o nosso espírito. É por ai que a gente vive, pelo invisível. Nunca sabemos qual o nosso futuro, ele é um enigma. Estamos no presente. E o que é o presente? É a fábrica do passado! E no passado está toda a nossa sabedoria. O futuro é o invisível, nunca sabemos o passo que vamos dar. O futuro é um enigma e como tal não podemos falar dele. O que me dá um grande descanso!" (risos).
Valeu a pena. Para o ano, no início do ano, haverá mais: é preciso continuarmos a ligar fé e razão, a arte e o sagrado, o invisível e o visível, afinal tão juntos e tão separados, continuar a perscrutar o sentido destes dias críticos (em alguma medida tempos últimos) em que estamos mergulhados, para não sermos os novos apanhados! A Pastoral da Cultura da Diocese do Porto continuará a ser uma promotora deste encontro, uma sementeira de novos possíveis e de um horizonte mais humano para a nossa vida, tão desfigurada ela anda, à semelhança de um Cristo que assim, na cruz, morreu Redentor. | Joaquim Azevedo