2011-12-15

No final de 2010, o P. José Tolentino Mendonça pediu-me um texto para o Observatório da Cultura sobre O diálogo entre a Fé e a Cultura no meio editorial. Acho que vale a pena relê-lo:



Por estes dias, enquanto trabalhava num dossier sobre Universidade Católica Editora – Porto, perguntei a mim próprio qual deveria ser o seu contributo para a Igreja em Portugal, para as faculdades de Teologia, mas também para as comunidades; na formação pessoal dos cristãos, mas também no diálogo entre a Fé e a Cultura. Diante da minha biblioteca, apartei mentalmente os livros passíveis de serem integrados numa área abrangente de mundividência cristã, da teologia dogmática à história da Igreja, da exegese bíblica à espiritualidade; ignorei os livros estrangeiros e procurei concentrar-me em edições relevantes: restaram-me um conjunto de livros, particularmente da década de 60 do século passado, divididos entre a Livraria Morais Editora e a Livraria Tavares Martins, e, mais recentes, os livros da colecção 'Teofanias', da Assírio & Alvim.
Naturalmente, trata-se de uma abordagem pouco criteriosa a uma questão que merecia um estudo aprofundado, mas creio que, ainda assim, esta perspectiva denuncia um diagnóstico evidente. Com efeito, só há duas hipóteses de ler/adquirir os grandes documentos da tradição cristã: resta-nos importá-los ou, no caso de terem sido traduzidos, há ainda a possibilidade de serem encontrados em livreiros/alfarrabistas.
É evidente que este não é apenas um meio privilegiado para o diálogo entre a Fé e a Cultura, trata-se de uma condição absolutamente necessária para que esse diálogo aconteça e seja consequente. Pode parecer uma consideração pretensiosa, mas não acredito que seja possível esse diálogo sem leituras partilhadas e só poderá haver leituras partilhadas se tivermos a capacidade de traduzir ou recuperar um conjunto de autores sem os quais estaremos irremediavelmente limitados.
Creio que seria necessário um significativo investimento na edição criteriosa de obras de referência, com cuidada apresentação estética e uma efectiva presença no mercado. Sem estes pressupostos, dificilmente criaremos um espaço mais abrangente, onde possam surgir projectos como a recente editora Pedra Angular, que privilegia o território da religião e da espiritualidade, não numa perspectiva confessional, mas numa relação mais ampla e complexa com a cultura.
Falar sobre o diálogo entre a Fé e a Cultura no meio editorial pressupõe, antes da definição de planos editoriais, a definição de um plano estratégico. Para a Igreja esse é um desafio essencial, não só por uma particular vocação editorial, mas sobretudo pelo seu fundamento dialogal. | JRT