2011-11-01

© Omar Cleunam


O dia 1 de Novembro é muito importante na vida da Igreja, na medida em que implica a sua capacidade de reflectir profundamente sobre si mesma. E esse é um desafio para cada cristão neste dia de todos os santos. Quando me refiro à importância deste dia na vida e na tradição da Igreja, não penso na Igreja como instituição, penso nela como projecto; e quando me refiro à importância deste dia na vida de cada um de nós, não penso em cada um de nós como indivíduo, ou como cidadão, penso em cada um de nós como projecto. E eu sei que a Igreja é uma instituição, com tudo quanto essa condição implica; e sei também que nós somos o que somos, enquanto representamos um papel social, enquanto fazemos parte de inúmeras máquinas com as suas complexas engrenagens… Mas hoje a Igreja lembra a si própria, e a cada um de nós, que todos somos verdadeiramente o que ainda não somos, e não o somos porque ainda fazemos aquilo que verdadeiramente não queremos. Eu repito: a Igreja lembra a si própria, e a cada um de nós, que todos somos verdadeiramente o que ainda não somos, e não o somos porque ainda fazemos aquilo que verdadeiramente não queremos. É só isso. E por isso participamos do pecado. E também por isso participamos da santidade. E por tudo isso somos um projecto, porque há uma tensão escatológica entre o que já somos e o que ainda não somos, porque estamos em construção, em conversão permanente, paciente… porque estamos a caminho; somos um projecto porque a Igreja não é um dado adquirido, a Igreja é ainda um estaleiro e cada um de nós participa dessa dupla condição de obreiro e matéria-prima. E é por tudo isso que vivemos em-Cristo e na-Igreja, e experimentamos as alegrias e as esperanças, os medos e as angústias da nossa condição humana, enquanto caminhamos para Deus: somos a Cidade do Homem no coração da Cidade de Deus, percorremos os Caminhos do Mundo rumo à Cidade de Deus, cicatrizamos as Feridas do Tempo porque já habitamos a Cidade de Deus… e no entanto estamos a caminho, com a Comunhão dos Santos no coração, como uma promessa.Sal da terra e luz do mundo, projecto de Deus. Somos chamados como Abraão: vocação, chamamento… Fala-se no dia de oração pelas vocações. Há vocações? Não... há carismas, que são modos diferentes de responder ao chamamento; mas o chamamento é só um, só há uma vocação: é a vocação universal à santidade. Sereis santos como eu sou Santo, diz o Senhor. E nós respondemos nos limites da nossa compreensão, nos limites das nossas possibilidades… nos nossos limites, contingências, fragilidades; e é esse sentido humano que Deus redime.Hoje é dia de todos os santos, é um dia para reflectirmos sobre o que já somos e sobre o que ainda não somos. No final deste dia a Igreja convida-nos a reflectir sobre os nossos irmãos que morreram na esperança da ressurreição, porque temos consciência que há uma parte do Caminho que temos que ser nós a percorrer, mas, quando o cansaço se abate sobre o nosso corpo e as distâncias ou os obstáculos parecem insuperáveis, intransponíveis, é o amor de Deus que nos aconchega e ampara, e nos conduz até à meta.Hoje é dia de todos os santos, é um dia para percebermos que a Igreja não tem futuro… a Igreja é o Futuro! Não falo da instituição, falo do projecto em que cada um de nós participa, nessa dupla condição de obreiro e matéria-prima; porque se não respondermos afirmativamente à vocação universal à santidade, não teremos futuro, mas se respondermos, cada um de nós será o Futuro. Por tudo isto é tão importante o Presente e essa voz que hoje nos fala: não deixes que o tempo te passe a perna, não deixes que o mundo te passe por cima, não deixes que a vida te passe ao lado; levanta-te e caminha. | JRT