2011-10-15

© Omar Cleunam


Vivemos um tempo surpreendente! O tempo da crise, aquele em que o sol bate de frente e os fios da teia surgem vivos diante dos nossos olhos. É um tempo negro em que, paradoxalmente, se pode ver muito mais claro. Um tempo muito duro e difícil para muitos; mas, até nessa rudeza injusta, nesse abandono indigno, nessa luz que cega, há uma voz que fala. Um chamamento ao que é o mais importante, ao essencial, ao retorno ao fio do que nos sustenta realmente e não apenas aparentemente. Construímos em dois séculos um castelo de cartão, cheios de luzes e movimento, um carrossel de imperativos e de necessidades, a maioria das vezes sem qualquer encontro, sem qualquer fala, sem qualquer escuta: o que é que o outro quer? Onde é que ele está? De que é que realmente precisa? Não, pensamos que já tudo está dito e sabido. O progresso!
Escutemos, desliguemos a nossa música, fechemos o livro da nossa retórica, façamos silêncio e ouçamos. Muitas horas e dias. Ouçamos. É preciso que as pessoas tenham tempo para se exprimir, na sua linguagem própria e não naquela em que queremos ouvi-los, sobretudo aqueles que se encontram em situações de maior vulnerabilidade. Eles são o fio de prumo. Em algumas áreas é quase necessário recomeçar. O que há em excesso neste ciclo de vida comum, que está a levar-nos à loucura, são os fugitivos ao pelotão. Iluminados, resplandecentes, carregados de soluções, mesmo para os problemas que já não existem. Somos uma sociedade de fugitivos do pelotão, em que só os mais fracos e pobres ficaram para trás – e tudo fizemos para que ficassem, mesmo sem estarmos porventura a dar por isso. Hoje, alimentamos o seu atraso. Por isso, a crise, a radicalidade desta crise, que não é mais uma pequena curva de um ciclo económico. Pára e olha para o fio que está diante dos teus olhos. Que vês?
Estamos nas mãos de curandeiros e adivinhos, vestidos com a pele de economistas e promotores do desenvolvimento social e urbano. Isto vai acabar mal e parece mesmo que a história nada garante. O passado não nos ensina mesmo nada! Só o sol a bater de frente! | Joaquim Azevedo